Em boca fechada não entra mosca

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O Reino Unido deu o que falar na última semana. A terra da Rainha foi palco de dois eventos que acabaram tendo sua repercussão internacional, já que os protagonistas eram de fora, e em ambos os casos teve gente que perdeu a chance de ficar calada. 

O mais trágico, com certeza, foi o caso do trote de uma rádio australiana passado para o hospital onde estava em tratamento a duquesa Kate Middleton, e que (ao que tudo indica) motivou o suicídio da enfermeira que atendeu a ligação e acreditou nos radialistas que fingiam ser membros da família real pedindo informações. Uma brincadeira inofensiva? Sim, mas como a doença era grave e coloca em risco o futuro herdeiro da Coroa, o “vazamento” de informações pode ser um problema terrível numa terra onde o noticiário é movido a fofoca. Sem contar a perda de credibilidade do hospital, o que deve ter motivado essa atitude extrema da enfermeira. O fato é que trotes e pegadinhas são as formas mais simplórias (e antigas) de fazer “humor”. Até que ponto é válido se aproveitar da boa-fé ou da reação de estranhos, sem seu consentimento, pra fazer audiência? Esse caso mostra que tem que se pensar nas conseqüências, e apesar de o programa até ter sido retirado do ar, as palavras que saem da boca não voltam mais. 

Mas o que mais repercutiu por aqui foi uma análise da revista britânica “The Economist” (confira aqui), em que o autor faz uma crítica aos problemas que o Brasil está enfrentando para manter o crescimento (e possivelmente para garantir um segundo mandato para Dilma). Relativamente despretensioso, o texto causou furor por, lá no final, o autor considerar que Dilma devesse demitir a equipe econômica para dar um novo rumo ao Brasil. Uma leitura atenta mostra que essa sugestão aparece muito mais uma hipótese de “teste” de pragmatismo da presidente do que um conselho propriamente dito. O texto é até razoável nas suas críticas. Mas o que pegou mesmo foi a mídia divulgando apressadamente que a maior revista de economia do mundo pediu a cabeça do nosso Ministro da Fazenda. 

Deu no que deu. A página da reportagem está entulhada de comentários dos mais questionáveis de brasileiros, dos mais variados espectros políticos (nada muito diferente da praga que se vê nas redes sociais todo dia). Os editoriais dos jornais brasileiros ficaram furiosos. Até a presidente se dignou a comentar sobre o assunto, e isso acabou fortalecendo Mantega no cargo. 

Esse é um baita exemplo de caso em que todo mundo perdeu a chance de mostrar que calar é ouro. O jornalista do Economist poderia ter tido algum cuidado com a escolha das palavras, mas no fim das contas é o que menos tem culpa nisso, já que é o seu trabalho ser instigante, e a liberdade de imprensa está aí pra isso. Os defensores/detratores mais exaltados do governo fazem um desserviço ao país com alguns comentários escabrosos que andam aparecendo por lá. A grande mídia nacional fez o pior de tudo ao focar suas manchetes num trecho de duas linhas de uma reportagem que nem se propunha a causar essa repercussão (e ignorando completamente o resto da crítica do autor, essa sim que renderia uma discussão interessante). E até mesmo a presidente perdeu a chance de sair com elegância dessa saia justa, ainda mais por de quebra alfinetar os países europeus com essa resposta. Se realmente uma revista estrangeira não tem influência nas decisões do governo, sequer deveria se dignar a responder sobre esse assunto (e, pelas suas palavras, dar a impressão de que a coisa seria diferente caso fosse uma revista nacional…). 

Haja mosca.


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