Eles chamam de vida, nós de poluição: o caso australiano

Por

Aproveitando o artigo de Antônio na sexta-feira, continuo o debate acerca das mudanças climáticas aqui na Página Internacional.

Tomando como premissa a existência do fenômeno das mudanças climáticas, assim como a sua ligação intrínseca com as atividades desenvolvidas pela humanidade nas últimas décadas, fica evidente a necessidade de estabilizar os níveis mundiais de CO2.

Neste sentido, a Austrália, pode-se dizer, forma uma espécie de vanguarda. Representando, ao contrário do que se poderia imaginar, um movimento político (que chegou a ser defendido como científico) não à frente de seu tempo, mas contra as evidências tangíveis. Os australianos, a partir da visão impregnada nas esferas de poder – até o governo anterior, na verdade, consolidou-se como o sexto país mais poluente em dióxido de carbono por habitante.

O governo atual tinha em mente um plano ambicioso de comércio de carbono, o qual levaria a uma redução em torno de 5% das emissões de gases do efeito estufa do país, isso nos próximos 10 anos. A proposta é parte importante do plano governamental para o meio-ambiente, especialmente tendo em vista a realização da conferência da ONU, em Copenhague, em dezembro. Porém, o Senado australiano rejeitou o plano, por 42 votos a 30. As justificativas? Bons, empresários temem que a legislação afete o setor carvoeiro australiano e que o esquema de troca de carbono termine por afetar a recuperação econômica do país, especialmente em relação ao emprego.

Relembrar é viver. A Austrália ratificou o protocolo de Kyoto somente em 2007. Na sua labuta contra as evidências científicas das mudanças climáticas, a Austrália teve no governo Bush um fiel aliado. No auge dessa ideologia pró-carbono, até uma campanha foi lançada “They call it pollution. We call it life” (Eles chamam isso de poluição. Nós chamamos de vida). Seria cômico se não fosse trágico.

O plano em relação ao comércio de carbono é somente um início. O governo de Kevin Rudd, primeiro-ministro da Austrália, tem um trabalho difícil. De um lado a pressão internacional; União Européia já apresentou seu plano, e o Brasil também pode apresentar um grande compromisso em dezembro. Já passa da hora, de países como a Austrália, China e África do Sul deixem de produzir energia através do carvão. Para os australianos, isso significa vencer os fortes lobbies do setor energético. Copenhague será o último encontro antes da necessidade de renovar o acordo climático: a Austrália terá que encontrar seu novo caminho.


Categorias: Ásia e Oceania, Meio Ambiente


1 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Concordo, Kita, que a campanha australiana seria absolutamente cômica se não fosse trágica ! o.OInfelizmente, a discussão em torno do impacto das mudanças climáticas e da poluição do ar não é consensual no cenário internacional na medida em que envolve interesses (notadamente econômicos) de poderosos atores, dentre os quais se destacam as grandes empresas.Apesar de ter esperança, confesso não acreditar que o "Protocolo Pós-Kyoto" a ser estabelecido em dezembro (tão perto já!) chegue como um marco diferencial no combate à emissão de gases nocivos ao meio ambiente por parte dos Estados.Apesar dos avanços alcançados nos últimos tempos, falta ainda muita consciência coletiva nas RI (especialmente por parte das potências) para que o assunto das mudanças climáticas alcance o status de prioridade que deveria ter...Até mais ! Beijos !