Eleições, sociedade e mídia

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Este post, diferente de outros que já escrevi, é muito mais um desabafo do que uma análise. Não é e nem deve ser interpretado como uma apologia a qualquer candidato a Presidente da República ou a qualquer outro cargo eletivo. Ele é o relato da frustração temperada pela desesperança: um povo que não conhece a si e nem a própria história é incapaz de transformar seu destino.

Os fatores dessa frustração serão concentrados, neste texto, em dois atores fundamentais do atual ciclo eleitoral: sociedade e mídia. Nesse período, praticamente todos, sem exceção e principalmente quem nunca se interessou, tornam-se especialistas em política. Por isso, não raro, constata-se a elevação do nível de bobagens divulgadas, a ascensão do sentimento de intolerância e o baixo nível do debate em torno de programas de governo – os quais, na verdade, deveriam ser de Estado.

Em primeiro lugar, as ideias e as propostas dos presidenciáveis – à exceção daqueles que conhecemos – são cada vez menos direcionadas para os eleitores e cada vez mais direcionadas para mídia. Importa aquilo que repercute, não necessariamente o que é essencial para o país. E a repercussão tem um preço: a construção de estereótipos, que alimentam a desinformação e a intolerância. “Isso é coisa de PTralha!” ou “Os tucanos privatizaram o país!”. Mesmo quem propõe o fim dos estereótipos – ou da polarização, como queiram – ou fica no vazio, ou fica na farsa.

Nós, sociedade, caímos na armadilha. Talvez por causa de nossa volúpia por simplificações grotescas. É mais fácil aceitar e reproduzir uma informação, especialmente quando ela reforça nossa identidade e convicções como contrárias àquelas que negamos, do que ir atrás da informação. O compromisso com a veracidade acabou. Prevalece a desinformação ou, pior, a falsificação da informação combinada com a intolerância e o sensacionalismo, que também são utilizadas nas campanhas. Um exemplo claro é a afirmação de que o Brasil propõe dialogar com terroristas que cortam cabeças. Afirmar isso é, no mínimo, desconhecer os princípios constitucionais de nossas relações exteriores e a tradição diplomática brasileira.

Em segundo lugar, ou a voz das ruas dos protestos de junho de 2013 não foi ouvida pelos presidenciáveis, ou o povo não soube o que pedir nem o que esperar. No máximo, apenas dois dos candidatos poderiam acolher essa voz, porém, estão bem abaixo nas intenções de voto. Isso leva inevitavelmente a seguinte dedução: o povo é radical e genérico no pedido, mas conservador na mudança, seja por temor, seja por inaptidão. Daí resulta a escolha na hora de votar, preferindo a opção “menos pior”, que pode ou não ser diferente da situação, em vez da melhor opção, aquela em que se confia de fato.

Outro ponto que cabe observar é a inversão das prioridades no debate eleitoral. São os temas polêmicos – legalização das drogas, aborto, criminalização da homofobia, etc. – que ocupam o centro do debate e não as políticas e as estratégicas dos programas de governo que contemplam esses temas. Não faz sentido discutir legalização das drogas e aborto, por exemplo, descolados dos programas para saúde e segurança públicas, bem como sua integração com outras políticas públicas. Dizer se é favorável ou contra não é o mesmo que propor ações consonantes com as próprias posições no contexto de uma ampla e integrada estratégia. Em grande medida, a mídia é a responsável por polemizar, por canalizar o debate em torno desses temas estruturados, não estruturantes, deixando a sociedade à deriva da audiência.

Finalmente, a votação clarifica o profundo abismo social no Brasil. Ela praticamente reflete uma versão adaptada da luta de classes das análises marxistas. Quem tem menor renda, vota no PT; quem tem mais, no PSDB (ou PSB). Ambos se criticam pelas razões inversas, enxergam-se como mutuamente excludentes e cultivam um sentimento recíproco de intolerância. Uns dizem, por exemplo, que políticas de transferência de renda são compra de votos, outros propagam o apocalipse dos programas sociais. Convém lembrar que nenhum candidato propõe o fim de programas dessa natureza. Os argumentos dos dois são injustificáveis. Trata-se de uma política de Estado, aliás, tão velha e praticada quanto à própria Economia. É, antes, um problema de ênfase – investir demasiadamente em uma área em detrimento de outra –, não motivo de intolerância e de segmentação social. Isso deve ser compreendido e aceito pela sociedade sem titubear.

Está chato! Sinceramente, ou nós – e também a mídia – evoluímos conscientemente enquanto seres pensantes em política, ou nós deixamos, de acordo com o senso comum, esse assunto relegado na discussão – como futebol e religião – para evitar brigas. Não é assim que se pensa no futuro do país, pela exclusão das diferenças. É, sim, pelo diálogo construtivo das alteridades, indispensável ao jogo democrático. Mas talvez isso fique para 2018, quando voltaremos a falar de política novamente.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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