Eleições no Japão: entre a tradição e a tal ‘ruptura’

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Update: 00h15 de segunda (horário do Japão)- apuração dos votos até agora
287 deputados do PD
94 deputados do PLD
33 deputados de outros partidos
66 votos a decidir
Ou seja, como previsto, o PD vence por uma maioria esmagadora.

Por sugestão do Alcir, eis uma matéria sobre as eleições no Japão!


Para quem não tem a menor idéia do que está acontecendo, clique aqui e aqui para saber mais. Há inúmeras notícias a respeito, mas tudo pode ser resumido em uma única frase: a oposição, representada por Hatoyama Yukio(Partido Democrata) é a grande favorita para acabar com a hegemonia de mais de 50 anos do conservador Partido Liberal Democrata, atualmente sob a liderança de Aso Taro.


Para saber como funcionam as eleições legislativas no Japão, clique
aqui.


Algumas impressões de vossa correspondente internacional…


Sobre as propostas dos candidatos, acesse os links do
Partido Liberal Democrata (Jimintō) e do Partido Democrata (Shumintō) (infelizmente, as informações não se encontram disponíveis em inglês). Quem puder acessar e entender, verá que quase 50% da página do PDL destina-se a atacar Hatoyama e o PD. Eu acredito que alguma alfinetadas no partido adversário são até saudáveis, mas quando não se consegue sustentar-se com a própria campanha e se passa a adotar a famosa “estratégia do desespero”, em que a campanha se restringe a ataques e críticas ao opositor, é porque as coisas não andam bem… Aqui no Japão não é diferente. E, como estamos no país dos mangás e animes, nada mais natural que usar deste artifício. Posto dois links destes vídeos em formato de anime:


Este
vídeo faz uma comparação entre promessas políticas e de amor. O
Don Juan – que não por acaso assemelha-se à Hatoyama – promete um mar de rosas à moça se ela ficar com ele. Ele promete cuidar de todas as despesas com filhos, educação, aposentadoria, cuidados médicos e rodovias gratuitas (sem pedágios). Quando ela pergunta sobre o dinheiro para realizar tudo isso, ele responde: “Esses detalhes eu penso depois que nos casarmos”. Por fim, o announcer indaga aos eleitores se se pode confiar em algo que não tem bases sólidas.


Neste outro
vídeo, o personagem de Hatoyama aparece novamente, dessa vez oferecendo o prato da casa, o “
Lamen Manifesto” (que nome infame e indigesto, heim!). Entretanto, a cada reclamação dos clientes, ele vai mudando a receita original para agradar até que, por fim, a moça pergunta se a tal gororoba não está totalmente diferente do começo, ao que ele responde “Não, desde o começo era pra ser assim.” E o announcer entra: “Não dá pra fazer ninguém feliz só se adaptando ao outro. PLD. Políticas Sólidas.”


Uma certa
inexperiencia de Hatoyama é previsível, e pode-se dizer que “elegê-lo é optar pela mudança tendo em mente até onde se está disposto a ‘aguentar’ por tal mudança…”, nas palavras de Mikuriya Takashi, um cientista político japonês. Mas diante de tantos escândalos do PLD nos últimos anos, a vontade de mudar e de arriscar é visível entre os eleitores. Decerto a mudança não será algo tão visível, mas a promessa dos Democratas é de tornar a administração mais horizontal e humana.

Chega a ser grosseiro fazer uma comparação de Hatoyama com Lula ou Obama, mas a imagem de “mudança” que ele representa, é de certo modo semelhante: os opositores insistem que a mudança trará instabilidade, enquanto os “representantes da nova era” prometem humanizar a política e realizar reformas um tanto radicais – que configuram-se muitas vezes difíceis, senão impossíveis de se implementar, uma vez no poder.


Mas, afinal de contas, qual é o tipo de promessa que os políticos japoneses fazem à população? Quais são os temas recorrentes nas promessas de campanha? Bom, o sistema de saúde funciona e é ótimo (não chega a ser gratuito, mas acho que se paga um preço justo por aqui), o serviço, nem se fala! O acesso à educação não chega a ser um problema no que concerne ao ensino compulsório, mas complica quando se faça em ensino superior. Segurança interna? Exceto alguns casos isolados, não é um assunto que merece tanta atenção. Já a Coréia do Norte…


O que gera polêmica mesmo são os temas relativos à
seguridade social (um sistema que já causou e ainda causa muita confusão e revolta), auxílio para a criação de filhos (sem impactar os casais sem filhos) e geração de empregos (juntamente com as polítcias de superação dos efeitos da crise econômica).


Aso fixa sua proposta de governo em 3 pontos: 1. Melhorar a economia (acabar com a crise econômica em um plano trienal, investir em atividades “primárias” que sofre com a falta de pessoal e estimular a economia regional); 2. tornar realidade uma sociedade em que se possa viver tranquilo/seguro (no que concerne questões de educação, criação de filhos, seguro social e medidas contra o desemprego); e 3. “Responsabilidade”, um leque variadíssimo, que abrange desde reformas administrativas, fiscais e políticas, à questão ambiental e energética, diplomacia e segurança internacional). Em geral, ele conta com o apoio dos idosos, das grandes empresas, alguns agricultores e a camada mais abastada.


Já o plano de Hatoyama – mais conhecido como Manifesto – consiste de 5 pontos: 1. Acabar com o desperdício dos impostos (= fazer melhor uso do dinheiro público); 2. Oferecer auxílios financeiros e bolsas de estudos às crianças e aos estudantes em geral (mais de US$ 3000,oo por cabeça, até o Ensino Ginasial), para aumentar o acesso à educação e facilitar a criação dos filhos; 3. Reformar o sistema de Seguridade Social e Seguro de Saúde; 4. Descentralizar o poder e dar mais autonomia regional; 5. Diminuir impostos e apoiar as pequenas e microempresas. Jovens, mães, recém-casados, desempregados e a outra metade dos agricultores tendem a votar nele.


Não detalharei mais os pontos da proposta de cada um, pois já recebi reclamações sobre a extensão dos meus posts… Sou da opinião de que o PLD apresenta propostas mais racionais e realistas, bem como críticas plausíveis em relação ao PD, entretanto tenho fé de que a eleição de Hatoyama possa dar uma refrescada e uma cara mais jovial (mas nem tanto) à política japonesa… Mas a tal mudança drástica e a ‘ruptura’ de fato que todos esperam… é algo a não se esperar muito…

É esperar os resultados de hoje confirmarem as expectativas (ou não, quem – remotamente – sabe?) e torcer para que as novas políticas do PD um tanto irrealísticas, em minha visão, possam ser milagrosamente implementadas…


Categorias: Ásia e Oceania, Política e Política Externa


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