Eleições na Colômbia e paralelos com o caso brasileiro

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Nesta última semana um assunto passou incólume por nosso blog. Domingo passado, os colombianos foram às urnas para o primeiro turno de sua eleição presidencial. De um lado, o candidato de Álvaro Uribe, Juan Manuel Santos, e do outro Antanas Mockus, do Partido Verde. Contados os votos, Santos obteve uma imensa vantagem, somando 47% dos votos contra 21% de Mockus. É importante o registro que o nível de abstenção manteve-se em quase 50%, como em eleições anteriores, uma vez que o voto na Colômbia é efetivamente um direito, não um dever. Um fenômeno interessante no cenário político colombiano é a ascensão de atores políticos dissociados dos partidos políticos tradicionais, neste caso o conservador e o liberal. Santos, no entanto, já acenou para a formação de uma coalizão com estes importantes atores, o que deve se consubstanciar em seguida ao processamento dos votos do segundo turno.  

Álvaro Uribe, amado por uns e odiados por outros, deixa o governo colombiano com aprovação histórica. Alguns movimentos de aliados indicavam uma manobra para uma candidatura a um terceiro mandato, que por fim terminou não sendo levada a cabo. É um ponto comum entre analistas que a Colômbia tornou-se um país mais estável e seguro no intervalo de oito anos, com as FARC tendo menor influência do quadro política colombiano. Em eleições presidenciais anteriores foram registrados inclusive atentados contra candidatos. Por outro lado, foram numerosos os escândalos no governo Uribe, passando por denúncias de corrupção, abuso do poder militar, desrespeito aos direitos humanos e espionagem, todos rechaçados pelo presidente. Por fim, nomeou-se seu ministro de Defesa – que liderava a principal iniciativa do governo – para candidato a sucessão. Há também evidências de interferência pró-Santos, advindas de instâncias oficiais.  

Cenário traçado. Parece com outro quadro político latino-americano, não? Presidente com aprovação histórica, principal ministro como candidato, aliados que queriam promover reforma constitucional para um possível terceiro mandato, denúncias de escândalos prontamente negadas, ameaças de participação da máquina do governo em campanha pró –ex- ministro/candidato. Sim, estamos falando do Brasil. Chegamos ao ponto. Para onde vão nossas democracias? Temos que vincular nosso avanço político, social e econômico a figuras específicas? A meu ver, a polarização é efeito negativo de figuras tão populares como Lula e Uribe, já que, ao contrário, o avanço deveria passar pela expansão do debate em torno da política, trazendo novas temáticas e debatedores. O que se vê é o exato contrário, diminuir os temas e restringir os atores para garantir a continuidade. Um jogo intricado e perigoso.  

Mas sempre há esperança. Mockus é um exemplo de fato novo. É evidente que no cenário colombiano o candidato do Partido Verde não é um “outsider”, uma vez que foi prefeito de Bogotá. Contudo, internacionalmente o candidato é um fenômeno que merece consideração. Eleito prefeito como independente, revolucionou a cidade com um misto de responsabilidade fiscal, inovação e recusa a jogar com a política tradicional. Sua ascensão na eleição presidencial lembra um pouco Obama com sua “change, we believe in”. Em grande medida, pode-se creditá-la ao uso da mídia social, mas móvel e cada vez mais acessível.  

No Brasil, até o momento, não há campanha presidencial sem o dinheiro de corporações, empresas e aliados. Santos lidera as intenções de voto para o segundo turno com o dobro de votos que Mockus, porém fica, ainda assim, o exemplo de uma campanha diferente e possível. Uribe, como Lula, tem uma base muito forte de votos entre os beneficiados por seus respectivos planos de governo, indicando uma tendência a continuidade de seus candidatos. No caso colombiano, teria acabado a magia de Mockus, destruída por sua própria maneira de ser? Aparentemente sim, nos resta o aparecimento de novos debates, como a segurança aliada ao reconhecimento dos Direitos Humanos enquanto matéria importante. Quem sabe não seja um caminho que o Brasil possa trilhar, saindo da mesmice entre Partido dos Trabalhadores e Partido da Social Democracia Brasileira.  


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


1 comments
Ivan
Ivan

Eu ia até escrever sobre a Colômbia mas acabei sem tempo...Enquanto o Santos é uma Dilma menos em sintonia com seu padrinho, o Mockus para mim é uma incógnita. Infelizmente na política aqueles com quem temos muitas esperanças ou são derrotados com táticas mesquinhas ou ao ser eleitos desapontam gravemente seus eleitores. Torço muito pra que na Colômbia a situação mude.