Eleições e desafios

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No tradicional tema das segundas-feiras, hoje falamos das eleições, agora em Angola. Nesse fim de semana, o país passou pela primeira eleição presidencial após a guerra civil de 2002, e apenas a terceira desde a independência de Portugal em 1975. Talvez o mais interessante de tudo isso é que pela primeira vez (que me lembre) vamos falar de uma eleição que transcorreu… numa total normalidade? 

Pois é, nada da carga simbólica como as eleições no Iraque e no Sudão, ou o clima de marmelada como na Rússia, ou a tensão como as do Egito. Existem denúncias de problemas (como eleitores cadastrados mas sem o nome nas listas) e a oposição reclamando da credibilidade do pleito. Mas, até o momento, os observadores internacionais disseram que tudo transcorreu bem, a eleição foi legítima e pelo jeito o atual presidente José Eduardo dos Santos foi reeleito com mais de 70% dos votos. Claro que isso não veio de um modo fácil. 

Lembrando um pouco de história, Santos é presidente há mais de 30 anos, e encarou a guerra civil que durou de 1975 a 2002, entre o seu partido, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), e a Unita (União para Independência Total de Angola). O interessante de Angola é que, após o fim da guerra, os dois lados enveredaram para a política, abandonando as armas (na medida do possível) de uma maneira muito mais efetiva que, por exemplo, no Sudão ou no Congo. Em meio a crises no continente, Angola é um paraíso de estabilidade, com uma economia que crescia a passos largos (média de 17% entre 2002 e 2008) e é um dos maiores produtores de petróleo da África. E muito disso certamente se deve à estabilidade política – principalmente, talvez, à morte de Jonas Savimbi, o líder da Unita, o que finalmente possibilitou o acordo de paz entre as partes. 

Nem tudo são flores, é claro. Alguns observadores internacionais questionam a possibilidade de haver eleições realmente livres no país, e que a presença “onipresente” do governante afeta a percepção de fora. Há ainda denúncias de repressão e irregularidades no pleito, além da constatação de que o crescimento econômico é desigual. Isso é claro – o país freqüenta rankings nada louváveis de pobreza da população e de corrupção. Talvez o maior problema seja, ainda, a dependência do petróleo, que deixa a economia angolana à mercê das cotações internacionais e alvo de interesses estrangeiros, como os da China e até mesmo do Brasil. Um censo será realizado ano que vem (o primeiro desde 1970), e aí será possível avaliar de um modo mais objetivo quais as verdadeiras condições sócio-econômicas da população. 

A situação de Angola mostra essa necessidade de manter um crescimento sustentado após anos de crise. Para continuar florescendo essa condição econômica favorável (e, quem sabe, para haver a redistribuição dessas vantagens para a sociedade como um todo), estabilidade política é essencial. E nesse quesito, por mais que haja problemas, o país parece estar mostrando uma importante solidez, com uma nova geração superando finalmente o estigma da guerra, e focando na disputa – mas apenas política.


Categorias: África, Economia, Política e Política Externa


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