Eleições e continuidade

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2010 deveria ser proclamado o ano internacional da eleição. Não que as votações gerais sejam incomuns nos mais de 170 países da Terra, mas pela excentricidade do que está ocorrendo esse ano. Na Ucrânia, os exemplares vitoriosos de uma revolução democrática viraram a casaca e caíram no ridículo. Na Colômbia, Uribe foi impedido pelo tribunal eleitoral de seguir o caminho de seu desafeto Chavez e perpetuar-se no poder (mesmo até que o povo colombiano viesse a legitimar essa continuidade pelo sucesso na luta contra as guerrilhas). E o Brasil tem a peculiaridade já comum por estas bandas de já estarmos em campanha eleitoral desde 2009… De qualquer modo, temos duas eleições com situações bem inusitadas que estiveram em voga nessa última semana, e que podem repercutir sobremaneira na política internacional de suas respectivas regiões.

No Sudão, temos eleições gerais recheadas de confusões em que, para a surpresa geral, o excelentíssimo senhor presidente Omar Al-Bashir desponta na liderança. O interessante é o fato de ele estar se candidatando à reeleição em um pleito dito livre, algo comum no mundo civilizado, a não ser pelo fato de seu longevo mandato, que perdura desde 1989. Não que isso seja um problema, afinal, como certa vez me disse um ilustre colaborador deste blog, a rainha da Inglaterra está a mais de 30 anos no poder e ninguém reclama…

A questão é que a oposição já fez as acusações de sempre, de irregularidades e corrupção, boicotando a eleição (o que daria a vitória tranquila a Bashir) e pedindo sua suspensão. A acusação é de que Bashir estaria utilizando a “máquina estatal” para se reeleger. É uma versão muito menos refinada do que já estarmos acostumados a ver no Brasil, e não se esperaria nada diferente do único mandatário com ordem de prisão em mais de 100 países devido a suas travessuras durante a guerra civil sudanesa. A permanência de Bashir no poder representa um grave risco à estabilidade da região, em especial quanto ao processo de pacificação do sul do Sudão, como exposto aqui.

O caso mais pungente, entretanto, é o decorrente da tragédia aeronáutica ocorrida na Rússia que resultou no falecimento do presidente Lech Kaczynski e de boa parte do alto escalão político polonês. Se o acidente em si já foi uma catástrofe no sentido da perda de inúmeras vidas, complica ainda a situação interna do próprio país. Abriu-se uma situação de vácuo político sem precedentes nos estados modernos democráticos, piorada pela falta de uma liderança para concorrer às eleições próximas – até o líder da oposição, também em campanha, se encontrava no fatídico vôo. Enquanto o presidente do parlamento assume o governo provisoriamente, se espera que as eleições do segundo semestre sejam antecipadas o mais rápido possível para suprir as vagas do Executivo.

O acidente se deu em um momento delicado para o leste Europeu: antes da assinatura do novo tratado de controle de armas nucleares entre EUA e Rússia, países da região se queixaram oficialmente a Washington por seu “esquecimento” da região, em especial pelo arrefecimento da questão do escudo antimísseis na Polônia, projeto visto com bons olhos pelo governante falecido. Já não bastassem os possíveis atritos entre EUA e Rússia por causa das bases no Quirguistão, uma grande dúvida permanece para o futuro: no que pese um fator de unidade que aparentemente sublimou temporariamente as divisões internas, o novo governo buscará evitar dissabores com a Rússia, ou insistirá na via de buscar guarida com os países ocidentais e possivelmente retomar as negociações do fatídico projeto norte-americano pelo bem e aspirações da região?

A particularidade dessas eleições decorre de sua imprevisibilidade, ironicamente derivadas de elementos opostos: a permanência de uma cleptocrata que é um câncer no Estado sudanês contraposta ao desaparecimento, literalmente, de um regime polonês conservador e envolto em uma conjuntura desfavorável. Haverá novos conflitos internos (e que em geral se espalham pra fora) no Sudão por conta da provável permanência de Bashir? Qual o rumo a ser tomado pela Polônia nesse ínterim, e quais as conseqüências? 2010 ainda promete muito.


Categorias: Europa


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