Elefantes na sala

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Nos dizeres populares, quanto se quer falar que há um problema enorme pelo qual passamos despercebidos, diz-se que há elefantes na sala. Algo tão grande que não teria como não se reparar, mas por razões quaisquer que sejam, impede-se de vê-lo ou simplesmente o ignora. Pensando sobre isso que li um recente editorial para a Folha de S. Paulo no qual Clovis Rossi disse que a Grécia tem vivido sobre uma ditadura. O país estaria sob um governo central composto pelo FMI, pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu que estaria limitando a escolha da população. A cada dia esses “ditadores” forçariam a Grécia a adotar mais medidas que envolviam cortes de gastos (como ocorreu na essa semana), já que não lhe apresentam nenhuma outra solução. Papandreou caiu e logo veio esse “governo central” para substituí-lo por um tecnocrata de sua escolha, Lucas Papademos, sem que houvesse sequer eleições diretas.  

Será que de fato a Grécia estaria vivendo sob essa ditadura? Bom, ditadura é sempre um termo muito forte para se usar. Mas, por outro lado, é um termo interessante, pois revela a indignação e busca chocar. Talvez, o que a Grécia, ou melhor, a União Europeia, tenha vivido é com elefantes na sala. Elefantes tão grandes que somente pela “doutrina absoluta do mercado”, da austeridade, do corte de gastos é que os países poderiam passar despercebidos. Basta lembrar as opções quase nulas que os organismos internacionais forneceram para o Brasil na década de 1980 e 1990 e para os países latino-americanos em suas inflações desenfreadas no mesmo período. 

Há muito louvamos a União Europeia como o maior exemplo da integração regional, aquele que atingiu o último estágio, o do Mercado Comum com moeda única. Todavia, é difícil ver em que medida os países do bloco estão dispostos a agir coletivamente e aceitar os custos das crises pelas quais o bloco passa. Paul Krugman mostrou que de fato a Grécia passou por uma gastança pública sem limites. Com os demais “porcalhões”, nossos PIIGS (Portugal, Espanha, Irlanda e Itália), houve uma gastança aliada a problemas estruturais grandes (clique aqui para conferir). Há também os efeitos da crise financeira mundial (clique aqui para um artigo interessante sobre o assunto) que tem ainda complicado mais o conjunto europeu, sem que haja uma ação conjunta de fato. Os elefantes na sala seriam os problemas que emergiriam da falta de ação conjunta do bloco. 

A Alemanha, a maior economia europeia, é o maior exemplo desse posicionamento. Quer, como todos, utilizar-se da melhor forma possível dos benefícios que a união político-econômica proporciona, mas não parece disposta a aceitar os problemas conjuntos insistindo apenas no corte de gastos dos demais. É um bloco que não age sempre como bloco. Pode-se dizer que há entre os alemães uma espécie de nacionalismo econômico que tem levado a uma visão (tanto na mídia europeia quanto no plano político) sempre pela austeridade, culpando os “gastadores” pela crise e louvando a austeridade, quando há muitos outros problemas por trás. 

Há uma ditadura? Talvez não, pois de fato não restam opções agora para a Grécia. Há, contudo, uma lição. Se a Europa continuar a viver com seus elefantes na sala, ignorando a ação conjunta e limitando as perdas aos países que considera os focos de crise, o bloco poderá não se sustentar. Os elefantes vão começar a se mexer e aí a coisa pode complicar ainda mais…

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Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


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