Ele não sossega mesmo… E eles?

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É, meu caro Alcir, realmente o ditador megalomaníaco norte-coreano não sossegou. No último sábado, às 23h20 (horário de Brasília), Kim Jong-Il ordenou o lançamento do foguete de longo alcance Taepodong-2. Para ele, bem como para China e Rússia, tudo não passou de um exercício com finalidade civil: colocar um satélite de comunicação em órbita. É a primeira vez que vejo um satélite em órbita oceânica.

Repercusão não faltou para tal ato. Estados Unidos, Coréia do Sul e Japão argumentaram que a manobra norte-coreana foi um teste para o eventual lançamento de um poderoso míssil. Convocou-se uma reunião de emergência do Conselho de Segurança. Nesta, os Estados Unidos e a França pediram uma “resposta unânime”, mas se depender do poder de veto de China e Rússia, unanimidade é o que não vai existir. Punir ou não punir, eis a questão.

Martin Wight, diplomata e renomado teórico da Escola Inglesa, considerava o Conselho de Segurança como o “o soberano hobbesiano das Nações Unidas”. Engraçado, mas nesses últimos dias Hobbes não tem sido a inspiração para o top 5; entre sorrisos e gafes as nações mais poderosas do mundo vão atravessando este momento de “tensão internacional”. Uma das gafes: a situação é emergencial e requer uma resposta severa da comunidade internacional, contudo, o que predomina é a inércia. Os chineses e os russos estão tranqüilos; o Ocidente resmunga, mas não age. Ou age de outras maneiras.

A Coréia do Norte provocou o mundo, sobretudo, os norte-americanos. Em primeiro lugar, em matéria de provocação, os Estados Unidos são os campeões, Bush filho pode nos explicar por que. Em segundo, se Kim Jong-Il quisesse realmente provocar o mundo, ele deveria dizer que está treinando terroristas – o terrorismo é a sensação do momento – e, se quisesse provocar os Estados Unidos em particular, deveria dizer que foram instalados programas de simulação de vôo nos computadores das escolas norte-coreanas. Para os estudiosos contemporâneos da guerra, o avanço dos armamentos nucleares cada vez mais diminui a possibilidade de um embate direto entre aqueles que os detêm. Prova disto: a Guerra Fria.

Se o ditador norte-coreano realmente provocou alguém, esse alguém foi o seu próprio povo. Deve ser muito importante mesmo para um país subnutrido e de condições precárias de vida possuir artefatos nucleares. Nem energia a Coréia do Norte gera – 80% dela é exportada da China – e, ainda assim, quer brincar com foguetes.

Há aproximadamente cinco anos, os Estados Unidos não mediram esforços para passar em cima do Conselho de Segurança e invadir o Iraque. Motivo: suspeita de possuir armas de destruição em massa. Ora, brincar de caça ao tesouro é mais divertido do que saber a exata localização dele. Assim não tem graça. Como também não tem graça invadir um país que não tem petróleo, que trafica seres humanos e que até diplomatas comercializam entorpecentes. O Tio Sam não tem grandes indústrias pesqueiras ou bordéis internacionais. Quanto ao consumo de drogas…

Ah! Mas o interesse não está na Coréia do Norte. Nela está o estopim. Kim Jong-Il inconscientemente (ou não) acabou reacendendo a discussão sobre a necessidade dos Estados Unidos implantarem um escudo antimísseis na Europa.

E as gafes não param. Estas agora vieram de Praga. Dois pontos me chamaram a atenção no discurso de Obama: 1) “A Coréia do Norte ignorou as obrigações internacionais, referentes ao Conselho de Segurança da ONU, e se isolou das outras nações”; 2) é “responsabilidade moral” dos Estados Unidos lutar por um mundo sem armas nucleares.

Deixem-me comentar o primeiro ponto: os norte-americanos realmente têm muita propriedade para falar sobre isso, afinal, nunca, em toda sua história, se isolaram de ninguém. Além disso, a Coréia do Norte deve ser o país mais sociável da face da Terra: vive um regime socialista capenga num mundo capitalista e tem por principais parceiros comerciais a Coréia do Sul, a China e a Tailândia – para onde vão 85% de suas exportações – num total aproximado de 200 países. Segundo ponto: o único país que chegou a fazer uso de armas nucleares contra civis quer o fim delas. Que responsabilidade moral é essa?

Segurança internacional agora é assim: de uma ameaça incerta à percepção confusa da mesma. Aí começa um infindável blá, blá, blá… O pior inimigo é aquele que não ameaça, se ameaçar, ganha um vale-retirada do Eixo do Mal.

É, José Simão, o Brasil que se cuide caso não queira perder o rótulo de “país da piada pronta”. Gostaria de umas gotas do seu colírio alucinógeno para enxergar melhor este cenário internacional tão estranho.


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Então, Léo. Na verdade eu questionei o fato de Obama ter dito que é um "dever moral" dos EUA lutar por um mundo sem armas nucleares. Quanto à ameaça norte-coreana, não digo necessariamente que ela é insignificante (apesar de que, por vezes, chego a acreditar nisto), mas por quanto tempo e quais sacríficios o país adentraria e/ou permaneceria no seleto grupo de países detentores de armamento nuclear?Na verdade, o objetivo do meu post foi levantar questionamentos e não sustentar uma posição ou trazer respostas. Este espaço é aberto exatamente pra isso, pra trazermos discussões.Muito obrigado pelo comentário!Um abraço

Leo.
Leo.

A título de curiosidade, eu devo ter entendi mal, mas me pareceu que a idéia dos EUA com armas nucleares seria mais perigosa que uma criatura feito o ditador da Coréia do Norte?Pessoalmente acho que a Coréia do Norte devia ter sido atacada junto com o Afeganistão, até por questões humanitárias (assim como o Sudão, é claro).