Egito: 11 de fevereiro, o dia que não acabará

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Há dias que nunca terminam. O sol de põe, a noite cai, mas mesmo assim o sentimento é que esses dias transcendem a percepção de tempo. De acordo com as palavras de uma amiga egípcia, em um texto de uma semana atrás, havia uma crise de geração no país. Em suas próprias palavras (em tradução livre):

“Eu pertenço a uma geração que vive uma crise de identidade. Uma geração que não se sente parte de nada, uma geração que encontrou refúgio no extremismo: seja religioso ou por meio do abuso de substâncias ilícitas. Uma geração passiva e apática. Uma geração de garotos abusadores e garotas tolas. Uma geração que cresceu temendo a polícia, sem esperança na justiça ou de oportunidades igualitárias. Uma geração que se cansou de mensagens ano após ano que não são bons o suficiente, não são bons para um emprego, não são bons para ter uma opinião própria e não são bons para escolher seus próprios líderes.”Yasmin Galal (3 de fevereiro de 2011)

Não chega a surpreender tal afirmação, afinal o país viveu sob a presidência (se é que podemos denominá-la assim) de Mubarak por cerca de 30 anos. Esta geração não conheceu um regime ou sistema político diferente. Segundo outra descrição de um egípcio, foi um modelo marcado pela expansão dos serviços de segurança. Não me refiro à segurança pública. Mas sim um modelo de segurança e inteligência com o intuito de limitar o debate político, frente ao medo constante detenção, abuso policial, tortura e até o risco de desaparecimento. Além disso, apesar de certa estabilidade econômica, Mubarak falhou em criar reformas sociais. Ao contrário, se deterioravam os serviços públicos, aumentava a corrupção e concentrava-se a riqueza. Assim, o Egito viveu. Com cerca de 20% de sua população abaixo da linha de pobreza e sob um permanente estado de emergência (que expande os poderes estatais).

A revolução do Egito esteve em gestação por anos. Os modelos repressivos e/ou autoritários têm a tendência de sofrer com uma degradação paulatina. O precedente na Tunísia foi à faísca que faltava. Não houve liderança. Foi um movimento popular. A reação do governo serviu como combustível e catalisador para a revolta, criando maior força popular e inviabilizando um caminho conciliatório. O aparato estatal reagiu a sua maneira, qual seja, através de violência e ações intimidatórias. Com isso, o movimento cresceu e espalhou-se pelo país. Nem mesmo o toque de recolher, a limitação dos serviços de comunicação e em alguns casos a violência contra jornalistas, foram capaz de conter a revolução. A cada dia era mais claro: não havia uma solução que não envolvesse a renúncia de Mubarak e a imediata instauração de um modelo democrático no país.

O Conselho das Forças Armadas está a cargo dos poderes presidenciais e tem a missão de concluir a transição. Tal organismo já afirmou que entende a magnitude das demandas populares e que trabalhará para atender as aspirações do povo egípcio. Por outro lado, Mubarak desempenhava um importante papel na região, como interlocutor do Ocidente e ponto de referência para a política norte-americana para a região. O movimento que começou na Tunísia e logo chegou ao Egito pode seguir se alastrando. Já começam movimentações na Argélia, Jordânia, Iemên e Sudão. O caminho para a democracia deve ser árduo, uma vez que o país não uma tradição democrática consolidada. Preocupa a questão da paz no Oriente Médio (especialmente a relação com Israel), mas é fato que o aumento da liberdade, debate e políticas mais acordes as demandas populares geram um otimismo quando ao futuro destes países. Espera-se que o extremismo não seja mais um refúgio e que por tal razão haja um debate profícuo quanto ao modelo de paz e estabilidade regional.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


2 comments
Jéssica
Jéssica

EEiiApesar da saída de Mubarak ainda tenho um pé atrás com os militares no poder( sei que eles são os mais indicados para manter a ordem no país e tal), pois muitos dos que estão no poder agora eram coniventes com o governo e não se pode esquecer que o presidente anterior ao Mubarak e o proprio eram militares. Acho que o processo de democratização do país não vai ser tão rápido e ainda veremos as pessoas reunidas na praça da Libertação reinvindicando melhorias( mas isso são cenas para os próxios capitulos, já que o futuro do Egito ainda é uma incógnita) mas enfim foi muito legal ver as manifestações de uma população cansada da ditadura imposta pelo ex-presidente, e o mais interessante foi que elas se uniram em pró de uma causa, de um país!PS: Nossa muito bom o texto da garota egípcia!Abraços!