Efeitos colaterais

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Nas últimas semanas temos vivido no Brasil uma delicada situação emergencial no campo da saúde. Surgiram novas espécies de superbactérias, resistentes a medicações, que já têm contaminado pessoas em diversas regiões do Brasil e dificultado a vida dos especialistas.

Há explicações variadas para esse fenômeno, e o uso indiscriminado de antimicrobianos, os famosos antibióticos, aliado a uma baixa segurança e higiene no ambiente hospitalar, possui uma posição central nesse largo rol de causas.

Pode parecer, à primeira vista, que esse texto trata de questões de saúde, mas, acreditem, o foco aqui ainda é as relações internacionais. Bom, a situação acima descrita mostra uma regularidade muito comum no campo da medicina e, que pode ser transposta facilmente para o campo da política internacional.

Pintou-se um quadro ilustrativo no qual o uso indiscriminado de um recurso, aparentemente de fins curativos, levou a um desgaste, ou, em outras palavras, a um efeito colateral grave, caminhando em sentido oposto do inicialmente visado.

Na política internacional não se vislumbra cenário muito diferente. Alguns recursos podem levar a efeitos colaterais sérios, trazendo à sociedade e aos próprios governos resultados no sentido bem oposto do desejado. Vejamos alguns exemplos.

Comecemos pelo país que tem sido o epicentro de grandes polêmicas atualmente, a França. Em sua paradoxal empreitada para proteção dos direitos da mulher, as medidas de proibição do uso do véu islâmico, a burca resultaram na supressão de manifestação de direitos religiosos, e tiveram repercussões bem maiores do que esperado.

A tentativa de proteger um pequeno grupo da sociedade resultou em uma grave ameaça para toda a população, literalmente, um tiro saindo pela culatra. Osama Bin Laden afirmou que a França é um potencial alvo de ataques terroristas por suas ofensas constantes à religião islâmica.

Agora vejamos os Estados Unidos e o Reino Unido. Dois países na busca de livrar o mundo de governos autocráticos, espalhar o valor ocidental da democracia e liberdade para o oriente e suprimir a manifestação de grupos que disseminem o terror. Entre as baixas, duas guerras nos últimos dez anos.

Se os objetivos tivessem sido alcançados os governos sofreriam ônus bem mais reduzidos. Todavia, nos últimos tempos além da falta de eficiência da estratégia de contra-insurgência, surgiram os vazamentos de documentos secretos do site Wikileaks apontando a violência e métodos não-ortodoxos, leia-se, torturas e outros abusos dos exércitos nas operações.

Outro tiro pela culatra. Cada vez mais a comunidade internacional cobra respostas dos governos e as guerras tornam-se mais impopulares para as populações. Operações que, no plano discursivo, visavam eliminar certas práticas resultaram no uso desses mesmos mecanismos pelos governos.

Os exemplos são infindáveis. Efeitos colaterais podem ser sempre observados em quase todo lugar na política internacional. Basta que expectativas sejam ricocheteadas na ação e retornem, quase que com a mesma força, contra aqueles que a planejaram.


Categorias: Estados Unidos, Europa


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