Economia doméstica

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Em alguns países, faz parte da grade curricular dos ensinos fundamental e médio uma matéria chamada “economia doméstica”, que no Brasil virou curso superior e abrange desde habilidades culinárias até a capacidade de sair do vermelho no fim do mês com as contas em dia. Ao que parece, seria um aprendizado muito salutar não apenas para indivíduos, mas também para alguns Estados em particular.

Vejam o caso da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. São eventos esportivos diferentes, mas ainda são os dois maiores do mundo e vão exigir somas astronômicas para a adaptação de necessidades estruturais. Se o país vive uma onda de ufanismo pelos eventos esportivos, não pode deixar de ter lucidez quanto aos gastos públicos. O discurso é bem conhecido: as organizações dos eventos vão atrás de patrocínios e parceiros de iniciativa privada nacional ou estrangeira para evitar a ingerência nefasta do Estado, aquele que não pode encostar os dedos na mão invisível do mercado. Mas vejam que, misteriosamente, o paizão sempre acaba tomando parte da farra.

Vejamos as olimpíadas no Rio. O orçamento inicial já é algo inimaginável de ser aplicado em uma só cidade por conta de um único evento, previsto inicialmente em singelos 29 bilhões de reais já está sendo inflado para mais de 33 bilhões apenas em infra estrutura, quase tudo às custas dos governos municipal, estadual e federal. Nada contra as melhorias em si, muito bem vindas por sinal, especialmente as estruturais, mas por que sua implementação será conduzida apenas por conta dos jogos? Por que não antes? Mistério. A questão não é apenas o custo em si, mas o “legado” dos jogos. Fala-se muito em deixar estruturas para o futuro, melhorias do esporte e afins, mas a realidade deixada pelo Pan-2007 é desanimadora, com seus prédios abandonados e dinheiro público que sumiu.

Se isso serve de um pouco de alívio (ou para piorar a história?), não é apenas no Brasil que isso ocorre. As últimas duas olimpíadas padecem do mesmo mal: Atenas-2004, apesar da ajuda da União Européia, e Beijing-2008, com o gigantismo da economia chinesa, tiveram gastos vultosos de seus Estados e produziram notórios elefantes brancos. Os extravagantes estádios chineses abrigam de tudo agora, menos eventos esportivos – os governantes podem optar por simplesmente por tudo abaixo e construir shoppings. A China é assim mesmo. Já a Grécia é um exemplo mais trágico, com 21 das 22 estruturas feitas para o evento consideradas desocupadas em 2009. Lembram da crise fiscal da Grécia? Diz-se que muitas das dívidas feitas pelo governo envolvem os jogos de 2004. Esta Olimpíada gerou prejuízos terríveis e comprometeu quase 7% do PIB do país (14 bilhões de dólares). Só comparando, a China gastou 21 bilhões, mas isto representa apenas 0,6% de seu PIB. Querer abraçar o mundo com as pernas, especialmente quando não se tem recursos, pode ser muito perigoso.

A Copa está prevista para seguir esse roteiro. Orçamento elevado (algo como 17 bilhões de reais, e que já está sendo previsto estourar em 120%), com a participação privada esperada mas o gasto final ficando às custas do governo. As melhorias de infra estrutura, em especial o trem-bala, são por demais custosas, e serão deixados alguns estádios com uso, digamos, limitado. Arenas novíssimas, de padrão internacional, construídas no meio do nada, não poderão ser mantidas por clubes pequenos (mesmo os grandes teriam dificuldades com isso, são todos deficitários). Essa farra com dinheiro público causa até problemas políticos (como na África do Sul). Melhor seria se nem tivesse sido escolhido como sede um país que não tem como arcar com estes gastos (ou o faz sacrificando outras coisas).

Se o Brasil pode aprender algo com os erros dos outros, é que uma política de irresponsabilidade fiscal pode causar problemas sérios e comprometer uma economia. Claro que o caso grego foi atípico, mas o Brasil há pouco tempo não era muito diferente, e não pode planejar gastos tão excêntricos sem uma fiscalização devida e responsabilidade – uma lição de economia doméstica que este não deve esquecer.


Categorias: Brasil, Economia, Polêmica


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  1. […] Olimpíadas já causa alvoroço e indignação por esses lados (como já esperávamos há alguns anos…), o caso de Sochi é ainda pior. Basta dizer que o dinheiro gasto para a realização dos jogos […]