E vai e racha

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[Pessoal, este post não seria possível sem uma conversa informal que tive com o Prof. Hector Luis Saint-Pierre hoje à tarde, juntamente com o colaborador deste blog Luís Felipe R. R. Kitamura. Ambos me proporcionaram reflexões bastante profícuas para a análise que se segue.]

Eis que a saga do envio de mais tropas ao Afeganistão chega ao seu final. Ou ao seu início? Certamente, assistiremos a uma nova encruzilhada para a política externa norte-americana: buscar novos parceiros (e consolidar antigos), inventar novos “inimigos sem face”, criar novas retóricas, legitimar novas ações retrógradas, dentre outros desafios. Ora, já se sabe que a guerra em solo afegão não é mais uma necessidade, senão uma escolha do presidente Obama, conforme decretou o presidente do Conselho de Relações Exteriores norte-americano, Richard Haass (ver a entrevista aqui).

Após uma análise de mais de dois meses do pedido do general McChrystal, Obama enfim se manisfetou favorável ao envio de mais tropas ao Afeganistão, na reunião de ontem no Salão Oval da Casa Branca com membros do governo, diplomatas e militares. Hoje, o líder dos Estados Unidos anunciaria oficialmente a nova estratégia para o país visado (ainda não publicada até a conclusão deste post), em discurso transmitido pela televisão. Sabe-se até agora que a decisão tomada confirma o envio de mais 30 mil soldados – e não 40 mil, como solicitado pelo general -, num prazo que varia entre 12 e 18 meses, elevando o total do contingente norte-americano para 100 mil.

A questão que não quer calar: por que enviar mais tropas para reconstruir um pseudo-Estados aspirante à condição de Estado, sob os baluartes da promoção da democracia e dos direitos humanos, depois de tê-lo arruinado? A resposta não está tão à mostra e talvez nem exista, mas é preciso retroceder ao acontecimento pivotal da história dos Estados Unidos no século XXI: o famoso 11/09. Os atentados às torres gêmeas desencandearam uma busca desenfreada por inimigos sem face, combatidos por meio da abstrata “Guerra ao Terro”. O inimigo passou a ser o terrorista e o terrorista, alguém desconhecido. Até a criação de uma lista de grupos terroristas se tornou necessária; detalhe: muitos deles eram considerados antes como grupos guerrilheiros, o que dificultou ainda mais a já confusa nomenclatura dos termos.

Ademais, combater o inimigo e se envolver em guerras se apresentou como sinônimo de prover segurança aos cidadãos norte-americanos. Segundo o Prof. Hector, o terror se disseminou pela população dos Estados Unidos a tal ponto que o medo e a insegurança se tornaram uma constante em suas mentes, sobrelevando a urgência de se criar respostas enérgicas a quem pudesse ameaçar o país. Surge então um desequilíbrio nas ações que até então estavam em curso. Por exemplo, a adoção de medidas restritivas à imigração, sobretudo árabe, rompeu com a tentativa de resgatar os muçulmanos ou tentar livrá-los da tirania (como na Bósnia, Somália, Kuwait) em prol do comprometimento em derrubá-los (ver o artigo do Friedman, publicado hoje no The New York Times, aqui).

É evidente que, inicialmente, Bush precisou de apoio para sua empreitada nos desertos e montanhas afegãs. Hoje, Obama sente a mesma necessidade. Logo após aprovar a elevação das tropas norte-americanas no Afeganistão, telefonou para importantes aliados. Gordon Brown aceitou o envio de mais 500 soldados ao país. Sarkozy rejeitou, mas buscará apoio na conferência de Londres em prol do Afeganistão. Medvedev ainda não respondeu. Três anos a mais num país onde se está há muito tempo parece criar desesperanças…

Dos erros iniciais à persistência neles. A guerra continua. Uma guerra, por sinal, sem objetivo, contrariando inclusive a própria natureza da guerra, afinal, quem luta, luta por algo. Pelo que lutam os Estados Unidos no Afeganistão? Lutam até mesmo contra o seu próprio povo, visto que 47% da população aprovam essa guerra de escolha. Ignoram até mesmo as lições da história: de Alexandre, o Grande, até os generais soviéticos, todos fracassaram em solo afegão. O veterano general soviético do 40º Exército da União Soviética, que combateu no Afeganistão, Igor Rodionov, declarou que “tudo já foi tentado” e que se desenvolveu uma guerra cíclica, na qual as tropas chegavam e os insurgentes partiam, e quando as primeiras partiam, os segundos retornavam. Outro veterano, Gennadv Zaitsev, ex-comandante da tropa de elite Alfa, da KGB, afirmou que a única resposta que os filhos dos cidadãos norte-americanos e britâncios, mortos em território afegão, será a de que seus país morreram para manter um presidente corrupto no poder. Quanta honra pela pátria, não?!

Liddell Hart, um dos mais renomados historiador militar, afirma que a guerra não tem outra finalidade senão conduzir a paz. Obama, com o seu Prêmio da Paz, inverteu essa assunção: quer conduzir a paz para a guerra. A guerra dos Estados Unidos no Afeganistão já não tem mais justificativa, nem legitimação, é produto de uma necessidade desnecessária – para conter a insegurança interna com uma aventura externa – e se tornou uma escolha descartada. Não é mais “ou vai ou racha”, agora é “e vai e racha”.

Num interessante artigo do El País, um jornalista escreveu que Obama é o empresário de um crico brilhante, com três picadeiros funcionando simultaneamente. Nesta situação, o público quer que tudo saia bem, não se contempla o fracasso e o risco parece inexistente. Um picadeiro é destinado aos trapezista, o qual seria o Afeganistão. Por que essa metáfora? Decerto, para desacreditar as expectativas do público, confirmar a iminência do fracasso – político e não militar – e a relevar a existência do risco. Em solo afegão, quem resiste é o Afeganistão, não necessariamente como país, mas como o Santo Graal da política externa norte-americana, como o objeto místico de sua maior procura…


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos


1 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Caros,Os comentários do professor Héctor, de fato, foram esclarecedores. Uma guerra sem um fim político em vista não faz sentido e estará fadada ao fracasso. É tentar defender o "indenfensável". A exportação da democracia não foi bem sucedida, nem poderia ser sob os parâmetros adotados. Obama não contemplou o general McChrystal, adotou um meio-termo. Mas teve que reforçar as tropas americanas no Afeganistão. Talvez aliados se solidarizem... Sinceramente, não vejo muita saída dessa situação. Qual seria outra solução plausível? Fica mesmo mais uma "sinuca de bico" para o Obama. Abraços,