É preciso palavras para construir o silêncio

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[Observação importante: este é o título da dissertação de mestrado de Mariana Bertol Carpanezzi no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UnB (aqui) e me pareceu oportuno para a temática abordada no post abaixo.]

E como anda o Paquistão depois das enchentes? Quase não anda. A comunidade internacional até se sensibilizou com as enchentes que afetaram o país, mas foi muito pouco além da sensibilização. Até o momento, estima-se que 1.600 pessoas tenham morrido e 20 milhões estão desabrigados, 20% do território está submerso, 700 mil casas foram destruídas e o prejuízo das safras é da ordem de US$ 1 bilhão (aqui). Sem casa, sem comida, sem dinheiro e doentes. Eis o infortúnio paquistanês!

No rol das problemáticas listadas acima, as doenças se apresentam como a mais comprometedora, visto que uma epidemia de cólera poderia dizimar rapidamente um número muito maior de pessoas do que as enchentes o fizeram. Para efeito de curiosidade, na Guerra do Paraguai (1865-1870), a cólera matou mais do que os combates entre a Tríplice Aliança e o Paraguai.

A fim de acelerar ajuda da comunidade mundial, Ban Ki-moon foi para o Paquistão. Deu uma declaração bombástica, “É o pior desastre que já vi!” (e o Haiti, onde o número de morte foi praticamente 125 vezes superior?), disse que as cenas cortaram o seu coração. Palavras fortes, sem dúvidas. A situação está crítica, acredita-se que a demora no fornecimento de ajuda deve-se ao “déficit de imagem”. O que seria isso? Bem, chegou-se ao absurdo de reter doações por causa do “cansaço” da mobilização de recursos em prol do Haiti. A ONU solicitou US$ 460 milhões e até agora obteve apenas 32% do valor. Um agravante às doações é o medo de que o dinheiro doado acabe na posse dos Talebans. Fato é, no entanto, que o valor levantado pela organização está muito aquém daquele que pode custar a reconstrução do país: US$ 15 bilhões, segundo o embaixador paquistanês no Reino Unido, Wajid Shamsul Hasan.

Indubitavelmente, é muito sensível a questão paquistanesa. Mas há uma pergunta que não quer calar: e os Estados Unidos? O governo norte-americano se “aliou” ao governo paquistanês para o combate ao terrorismo no Oriente Médio. Para isso, não hesitou de modo algum em repassar verbas. Aliás, estima-se que os EUA, desde o 11 de setembro, gastaram US$ 1 trilhão em sua guerra contra o terror, sem contar que destinam 4,3% do PIB (US$ 661 bilhões) para gastos militares. Após as enchentes que devastaram o país, a ajuda para a reconstrução foi de US$ 71,2 milhões. É melhor combater o terror como entidade imaginária do que quando ele adquire rostos; a personificação do terror contradiz os interesses do Tio Sam. Para piorar, a identificação de focos terroristas no Paquistão atravanca a ajuda internacional.

Pois é, a mobilização discursiva em prol da questão paquistanesa é muito bonita e necessária, mas as palavras só estão contribuindo para construir o silêncio. Silêncio de entidades e países que relutam em repassar recursos. Silêncio dos norte-americanos, desinteressados no apoio humanitário, apenas no bélico. E o pior, o silêncio do povo paquistanês, cujos gritos diários de sofrimento passarão longe dos holofotes da mídia. É ensurdecedor este silêncio…


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

O ocidente está a perder uma excelente chance de ganhar corações e mentes por lá. Por outro lado o assassinato de médicos que por lá atuavam deve ter desestimulado muito os doadores particulares.