E no Sudão – de novo…

Por

A tradição das postagens de segunda-feira é comentar sobre eleições, e podíamos discorrer bastante sobre o Sarkozy escondendo seu relógio e seu provável fracasso no segundo turno francês. Mas, como o mundo não pára, estamos com uma crise bastante grave acontecendo em outra parte do mundo. E não são os coreanos do sul e do norte exibindo mais e mais foguetes uns pros outros e se jurando de morte, mas a possibilidade de um conflito entre Estados bastante real. 

Nas últimas semanas, o Sudão e o Sudão do Sul trocaram farpas. O pomo da discórdia é uma região petrolífera na fronteira, Heglig, que está sob disputa: é do Sudão, mas o Sudão do Sul clama ter a posse. O resultado foi uma invasão meio malfadada, que rendeu um monte de bombardeios, a morte de mais de 1200 soldados e a retirada estratégica das tropas do sul. Não houve declaração formal de guerra, mas está se encaminhando pra começar o primeiro conflito entre Estados diferentes na África desde o final da década de 90 – e, salvo engano, um dos poucos dessa natureza que vai estar acontecendo no mundo. 

O grande problema não é a região de Heglig isoladamente – essa situação parece ter sido contornada, apesar do morticínio, já que os EUA e a ONU chegaram para fazer aquela pressão e pedir pro pessoal ir à mesa de negociação. Mesmo a China, que manda e desmanda por aqueles lados, não tem nada a ganhar com um conflito desses. O problema é o resto da fronteira. Ainda há inúmeros campos petrolíferos e cidades que podem virar objeto de disputa, e a possibilidade de um conflito generalizado (que, muito provavelmente pode se espalhar pra países vizinhos, seja pela participação direta – mandando tropas – seja indireta – recebendo refugiados, por exemplo) é muito grande. 

Temos um país criado recentemente, com um governo instável, e que está com o brio ferido por essa derrota. Por outro, um país que sofreu uma fratura territorial enorme, grande instabilidade interna, que corre o risco de perder áreas economicamente importantes, e com um histórico nada pacífico. Ao contrário das Coreias, que estão no discurso ainda, os Sudões já foram às vias de fato, e a possibilidade de conflito não é apenas enorme, como apenas uma questão de tempo para que ocorra de fato, infelizmente. Se as negociações vingarem e a coisa esfriar, vai ser uma surpresa muito grata. 

É triste ver como um caso bonito como o do Sudão do Sul (criado por referendo, uma autêntica demonstração de autodeterminação de um povo), que trazia tantas esperanças para resolver uma das crises humanitárias mais terríveis da história, esteja descambando para a guerra. Onde foi o erro, na delimitação das fronteiras? Era tão inevitável assim a possibilidade de conflito? Ou seria a mera presença do “excremento do diabo”, o petróleo, que a tudo corrompe? A esperança é a última que morre, mas no Sudão ela parece amordaçada.


Categorias: África, Defesa, Economia, Organizações Internacionais, Paz, Segurança


3 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

De fato, quando foquei no petróleo, foi mais para delimitar o tema e ficar no assunto "mais quente". É claro que as causas profundas desse eventual conflito vão de partilhas territoriais ruins e inimizades tribais a governo ineficiente e corrupção. Talvez a crise do Sudão bata em dois pontos principais: o fato de não sabermos exatamente o que pode ser feito pra evitar que isso ocorra sem cair na tentação da intervenção (coisa que já está sendo aventada pra Síria, por exemplo); e a pesada influência chinesa na região (basta dizer que eles importam trabalhadores chineses pras refinarias; e os sudaneses, como ficam?). São pontos para reflexão e questionamentos.

Jéssica
Jéssica

EiiAlém disso, cabe ressaltar que o Sudão do Sul já nasceu como o país mais pobre do mundo, com estruturas frágeis. Assim, acredito, que eles vêem no petróleo uma esperança de sair dessa condição,( ainda mais que as exportações de produto correspondem à mais da metade da receita do país) porém, como já vimos isso não vai ser nada fácil. Como já falado, para os dois países entrarem em guerra pouco custa, ainda mais com o histórico do Sudão (Darfur? oi?). O Omar al-Bashir mesmo sendo acusado de crimes contra a humanidade e não podendo "arredar" o pé do país, pode fazer ainda um estrago bem grande no seu vizinho do sul.Abraços!

Pri Rosso
Pri Rosso

Para mim, embora o petróleo seja um forte motivo para conflitos como esse, a questão do Sudão é mais complexa que isso. A separação de territórios é geralmente algo que gera tensão, afinal perde-se uma longa extensão territorial que contém não apenas riquezas minerais como água e petróleo, mas população contribuinte... Acho que ainda veremos muitos posts sobre isso e muito provavelmente não estarão ilustrando uma magnífica solução pacífica.