E no Oriente Médio…

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Agora se fala na intensificação da corrida armamentista. Intensificação porque desde quando o Oriente Médio é o Oriente Médio, o medo do vizinho conduz a persecução da própria segurança e gera insegurança aos demais, brindando o célebre conceito do “dilema da segurança”, cunhado por John Herz. Predomina um forte senso hobbesiano, animalesco e selvagem, que impele a busca frenética da sobrevivência a qualquer custo, inclusive o extremo da aniquilação que ecoa em frases do tipo “riscar Israel do mapa.”

O autor da frase coincidentemente é também o autor da atual discórdia e da intensificação da corrida armamentista. Mohamed Ahmadinejad, eis o nome. Enriquecimento de urânio e programa nuclear, eis as obras de sua autoria. Não foi à toa que tanto falamos do Irã na Página Internacional e parece que o assunto não se esgota.

O ímpeto iraniano parece irrefreável. O presidente determinou ao chefe da agência atômica iraniana, Ali Akbar Salehi, que começasse a enriquecer urânio a um grau de 20%, e não mais a 3,5%, o que, para a comunidade internacional, demonstrou claramente as pretensões do Irã: construir uma bomba atômica (se é que ainda não a detém). A reação imediata não poderia ser outra senão prever novas sanções contra o país, supostamente mais rígidas, mas que, na prática, nada fazem e já foram motivo de chacota pelas autoridades iranianas.

Os ministros de Defesa dos Estados Unidos e da França, Robert Gates e Hervé Morin, reuniram-se ontem e também são favoráveis ao endurecimento das negociações com o Irã, atitude que pode esbarrar nas posições sustentadas por Rússia e China, que geralmente se abstém de apoiar as punições. No entanto, o governo russo até concorda com a adoção de novas sanções, enquanto o governo chinês permanece mais cauteloso, o que não é para menos, visto que se tornou o maior parceiro comercial do Irã, superando a União Européia. Assim Pequim não brinca. O Itamaraty, por sua vez, ainda acredita num acordo entre a comunidade internacional e o governo iraniano.

Até o momento, paradoxalmente, as ações só produziram a inércia. O Irã continuou enriquecendo urânio e alimentando o seu programa nuclear e a comunidade internacional, reclamando. E o temor no Oriente Médio cresceu. A região precisou encontrar seus próprios meios de se defender, enquanto o mundo se perdia em seus jogos políticos. Em 2008, os Emirados Árabes e a Arábia Saudita tiveram gastos bilionários em armamentos, R$ 17,4 bi e R$ 15,6 bi, respectivamente. Mais ainda do que a necessidade de defesa, a aquisição de armamentos também levanta perspectivas de ataque, Israel já chega a suscitar uma incursão para conter o Irã. Os intrépidos guardiões do golfo também se movimentam, os Estados Unidos decidiram ampliar seu sistema de defesa na região.

(A Folha de São Paulo de hoje trouxe uma matéria que listou o poderio militar no Oriente Médio, incluindo o contingente ativo das Forças Armadas e as armas em destaque, de Irã, Israel, Egito, Síria e Arábia Saudita.)

E no Oriente Médio, luta o Oriente Médio contra si mesmo pela sobrevivência e, simultaneamente, luta contra o mundo por seu lugar digno na história da humanidade, que outrora pudera ocupar. Uma luta pela vida e pela memória que deveria suplantar a incandescência bélica e auto-destrutiva.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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