É hora da "hamanização"

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Particularmente, fui atraído por uma notícia que ocupou grande espaço na Folha de São Paulo no último domingo: a “talebanização” da Faixa de Gaza. Processo similar ao ocorrido no Afeganistão pode estar ocorrendo lentamente e de maneira imperceptível nessa região, com a perspectiva de se espalhar pelos territórios palestinos, à medida que o Hamas ganhe projeção política. Em outras palavras, expliquemos melhor o termo: assim como o Talebã, o Hamas está passando da resistência ao controle do país. Porém, diferentemente do primeiro, este se converteu em partido político no ano de 2006, abandonando a luta armada (será?).

À parte dos esforços travados e confusos pela paz no Oriente Médio, fato interessante é a reorganização interna de uma sociedade. Reorganização que passa, primeiramente, pelo intenso bloqueio promovido por Israel à Faixa de Gaza, mesclada com as ondas de aversão e inação. Os ataques à flotilha humanitária no ano passado, o fracasso das negociações diretas, a entrevista à Folha do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter sobre a incapacidade dos Estados Unidos de conduzirem sozinhos a paz na região são exemplos de fatores que induzem à reclusão palestina em territórios esfacelados e permitem a ampliação do raio de ação do Hamas, sob a justificativa da proteção de seu povo.

Agora é a vez a “hamanização”! Sob este altar, ocorre o casamento entre cultura e poder. Alguns costumes estão mudando, como a proibição ao fumo do narguile para as mulheres em locais públicos, o tom islâmico está aumentando, tal como a intolerância para com a oposição. O Hamas dissemina idéias para reforçar a sua autoridade. Procura se impor diante de uma sociedade que teme Israel e o Ocidente. Para tanto, precisa da relação biunívoca entre cultura e poder, crenças para serem seguidas e para ganhar poder, e poder para ditar crenças.

[Uma indicação bibliográfica indispensável sobre a discussão entre cultura e poder é o livro de Estevão Chaves de Rezende Martins, intitulado “Cultura e poder”.]

Se os impasses perduram externamente – a guerra bate outra vez na soleira das fronteiras, para os israelenses, Abbas teme pelo futuro caso não venha a paz –, no plano interno, a sociedade vai ficando sob o controle do Hamas. Como partido político ou milícia, ainda não sabemos. A história pode estar se repetindo, primeiro como tragédia, depois como farsa, numa paráfrase de Marx.


Categorias: Cultura, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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