E fez-se a Celac…

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E fez-se a Celac… após mais de um ano de concertação política, com a primeira edição da Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac), encerrada ontem na Venezuela, este novo organismo regional de promoção do multilateralismo foi oficialmente criado. Ao todo, 33 países de toda a América Latina e o Caribe compõem o grupo, diferenciando-se, desta forma, das demais organizações regionais que não possuem esse grau de abrangência, à exceção da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Aliás, há quem descreva a Celac exatamente como uma “OEA sem Estados Unidos e Canadá”. Em termos práticos, é isso mesmo. Somando-se às iniciativas multilaterais já existentes (Unasul, Comunidade dos Países Andinos, Grupo do Rio, Mercosul e Alba), a Celac promete impulsionar ainda mais o processo de integração regional. As semelhanças culturais, linguísticas e históricas entre a maior parte dos países-membros (dos quais o Brasil talvez seja o que mais se difere) tornam o processo de integração “auto-justificável”, em um momento histórico no qual o fortalecimento das alianças dita o tom das Relações Internacionais.

O aspecto mais delicado desta nova Comunidade talvez seja exatamente o seu teor naturalmente “anti-estadunidense”, buscando um posicionamento mais coerente dos países-membros frente ao gigante norte-americano. O presidente do Equador, Rafael Correa, já arriscou inclusive a afirmar que a Celac irá, “mais cedo do que tarde”, substituir a OEA… para o boliviano Evo Morales, por sua vez, a Celac é instrumento de libertação em relação à dominação imperial. Será?

Este aspecto não é unanimidade entre todos os membros e parece ser precipitado lançar previsões deste tipo sem que a organização realmente se prove eficiente na promoção do diálogo entre os 33 países que, para além das semelhanças históricas, possuem também muitas diferenças, especialmente em termos de interesses no cenário internacional. Contudo, se bem-sucedida, certamente a Celac possui todas as ferramentas para demonstrar a força da América Latina e do Caribe frente ao status quo baseado na dominação pelas potências tradicionais.

Com a assinatura de uma série de documentos nas áreas política, econômica e cultural neste final de semana, fez-se a Celac como o mais novo instrumento para o desenvolvimento comum da América Latina e Central. Esperemos, pois, que a criação deste espaço tenha sido apenas o primeiro de muitos feitos concertados entre os países-membros deste grupo regional – cuja abrangência e relevância são, certamente, colossais.


Categorias: Américas, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


4 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

De fato, reconheço que certo ceticismo é inevitável neste sentido, Mário. A Celac surge como mais um instrumento regional em torno do qual existirão grandes divergências entre seus membros a respeito de assuntos cruciais... aguardemos um pouco mais para realmente visualizar qual será o impacto no longo prazo, né? E, sim, em qualquer bloco internacional a visão individualista de cada um dos membros deve ser "pesada" em uma balança que (em tese) privilegia o bem-comum. O que não significa que os interesses nacionais não estão presentes (pelo contrário), mas espera-se que os Estados tenham a devida razoabilidade de agirem de fato multilateralmente em ambientes multilaterais como esse... a ver como isso se passará com relação à Celac!Obrigada pelos comentários e por prestigiarem o blog! Com certeza assunto não falta para debatermos esse tema!Abraços!

Mário Machado
Mário Machado

Bianca,Eu já perdi esse otimismo.. todo uma pena. Meu olhar sobre é cético. Abraços,

Anonymous
Anonymous

Interessante! Mas os membros participantes têm que mudar a visão individualista-aquelas que servem para reeleições-e pensar no bloco, primeiramente. Não é para isso que servem os tratados multilaterais:o bem comum?

Anonymous
Anonymous

Muito interessante este novo instrumento de integração da America Latina e Central. Parabéns , pela clareza do texto.