E eu com isso?

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Muitas foram as discussões com relação às eleições na Venezuela, mas, afinal, que diferença faz para o Brasil? 

Hugo Chávez estreitou nossas relações bilaterais. Começou com Fernando Henrique Cardoso, consolidou-se com Lula. Na sua segunda fase ganhou novos contornos decorrentes de afinidades preexistentes entre ambos governos. O que continua, tendo como exemplo o apoio de nosso ex-presidente a Maduro.   

Brasil e Venezuela convergiram que havia uma necessidade de mudança no sistema internacional vigente. As divergências acumularam-se quanto a escala e os meios para atingir esta mudança. A diplomacia presidencial, de Lula e Chávez, ajudou a destacar as diferenças.   

O anti-liberalismo e anti-imperialismo chavistas defendiam uma transformação mais profunda, um novo modelo de desenvolvimento. Neste sentido, coexistiriam a “pátria chica” com a “pátria grande” (referência a integração latino-americana). Com o tempo, surgiram novas alianças regionais e mesmo globais (algumas controversas).  Sua lógica foi predominantemente conflitiva.  

O Brasil, por outro lado, buscou a conciliação. Nossa diplomacia sentava-se à mesa dos grandes, enquanto criticava o sistema pautado neles. Ganhou espaço, muito decorrente de sua consolidação econômica. Não foi mais possível alijar o Brasil dos grandes debates. Expandiram-se os contatos diplomáticos, nossas iniciativas e consequentemente nossa interlocução.  

Desta forma, foi nossa maior virtude e nosso maior pecado. De um lado, fomos criticados por não tomar partido claro de ninguém. Uma ambiguidade possivelmente intencional. Já que assim, por outro lado, mantivemos nossa capacidade de mediar e consolidamos nossa capacidade de interlocução. Afinal, o Bush – o diabo para Chávez – podia discutir com Lula a Venezuela, ao passo em que os venezuelanos seguiam vendo Lula como irmão.    

A alternativa do chavismo tem forte apelo, é inegável. Para o Brasil, foi ambivalente na medida em que postou-se como contraponto às possibilidades de consolidar nossa liderança regional; mas serviu para destacar o fato de sermos um vetor importante (talvez o único) para a comunidade internacional lidar com a Venezuela e seus aliados políticos e ideológicos, ou seja, sermos na prática o melhor projeto de líder regional.  

E agora, Maduro ou Capriles? Maduro, deve seguir caminhos similares ao seu padrinho, mantendo as parcerias comerciais estabelecidas e paulatinamente diminuindo a interação com países não alinhados. Cabe esperar se seria mais moderado com relação aos temas internacionais. Capriles, por sua vez, indicou sua afinidade com o modelo de Lula, o que poderia pressupor mais conciliação e menos conflito na esfera internacional.  

O processo em marcha por influência de Chávez e pelo surgimento de lideranças nacionais que defendem maior peso ao controle estatal está consolidado. Estas entram em atrito com a diplomacia brasileira de negócios, levando grandes empresas e projetos aos vizinhos. Não faria sentido somente trocar o comando (e a nacionalidade) dos grupos dominantes, não? Ainda assim, o apoio de Lula pode indicar uma simpatia do nosso governo com a continuidade na Venezuela. A linha primordial que nos difere foi traçada, mas a conciliação brasileira continuará à prova no Mercosul e na Unasul. Dependerá da herança deixada por Chávez.  

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Categorias: Américas


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