E agora no Chile…

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Em menos de dois meses, a natureza voltou a mostrar o seu ímpeto devastador no continente americano. Desta vez, a vítima foi o Chile. O tremor que abalou o país no domingo atingiu 8,8 graus na escala Richter e deixou pelo menos 723 mortos – embora a contagem ainda não tenha se encerrado. Curiosidade à parte, embora em menor intensidade (7 graus), o terremoto no Haiti, em janeiro, provocou um número de mortes mais de trezentas vezes maior – por volta de 230 mil. De todo modo, ambos os eventos trouxeram intrigantes reflexões para as relações internacionais.

Primeiramente, reputa-se indispensável deixar de mencionar que a humanidade tem negligenciado a ação da natureza. Neste sentido, mais uma vez recaímos na inércia de Copenhague, reunião tão esperada e na qual somente se adotou um acordo provisório sobre as mudanças climáticas. Negligência que se prolongou, fazendo-se presente na prevenção de ambos os terremotos no continente americano, visto que alguns especialistas chegaram a afirmar podiam ser detectados com antecedência.

Um segundo aspecto seria a discussão que se engendrou em torno da segurança da população. No Haiti, ganhou dimensão o debate sobre o cárater das intervenções de paz das Nações Unidas. O Brasil, que atualmente lidera a MINUSTAH, atua no sentido de promover a segurança para os haitianos e não necessariamente reconstruir país. Mas e agora com esse caos, com a onda de saques, violência, instabilidade governamental e demais calamidades, como proceder? Já no Chile, os saques começaram para valer, até quartel está sendo saqueado. Bachellet ordenou o toque de recolher entre às 18h e 6h, bem como colocou 14.000 soldados nas ruas. No entanto, segundo previsões, parece que o terremoto não afetará a economia chilena. Em países pobres, fala-se em salvar as pessoas, em ricos, o dinheiro.

Em terceiro lugar, há algum tempo, a chamada Escola Inglesa das Relações Internacionais definiu três tipos de arranjos entre os países, sendo uma delas a “sociedade humana”, cujas relações se dariam entre humanos, mais do que entre países, e de acordo com o valor da solidariedade. Teria a comunidade mundial formado uma sociedade humana? Ao menos, supõe-se que ambas as catástrofes geraram interações mais solidárias. Todavia, uma solidariedade incerta.

Nos meandros da reconstrução do Haiti, temos acompanhado muita disputa por poder atrás das cortinas de todo solidarismo. No Chile, a situação pode se encaminhar para um desdobramento similar. De prontidão, os Estados Unidos já se dispuseram a prestar ajuda ao seu aliado histórico. O Brasil, aspirante à condição de líder regional, não ficou atrás. Lula visitou o país e anunciou o envio de um hospital de campanha da Marinha. E, acreditem, até a Bolívia se mobilizou, esquecendo a rivalidade com o seu vizinho, que anexou a região de Antofagasta, território que proporcionava a única saída dos bolivianos para o mar. Mais do que uma genuína solidariedade, cria-se também um palco de disputas políticas.

E, por fim, em quarto lugar, caberia o questionamento: apenas em momentos de extrema aflição é que se desenvolve o sentimento de humanidade? Quando ocorre uma catástrofe ambiental, o auxílio vem para salvar vidas; quando ocorre uma guerra, o auxílio vem para espalhar mortes. Em ambos os casos, estamos falando de seres humanos. Sejam por armas ou pela natureza, a disseminação da desgraça é a mesma.


Categorias: Américas, Meio Ambiente