E a história se repete…

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Ban ki-moon Sudao do Sul

Há algumas décadas, imagino que não seria utópico pensar que, no ano de 2014, as ideias de genocídio e crimes contra a humanidade constituiriam marcas de um passado distante, refletindo expectativas em relação a um novo contexto internacional em que tais situações não mais seriam identificadas ou, se identificadas, facilmente combatidas.

Como tragédia ou farsa, já ouvíamos de Marx que a história se repete e, infelizmente, é o que vemos hoje acontecendo no Sudão do Sul. Este que é o mais novo país do mundo, cuja independência do Sudão ocorreu em julho de 2011 e configurou a esperança de solução para uma guerra civil duradoura em que sudaneses, ao sul e ao norte, sofreram aos milhões, tornando-se refugiados ou vítimas fatais de um conflito do qual não escolheram fazer parte.

Com uma geografia privilegiada em relação a reservas de petróleo, esse benefício se tornou a maior fonte de recursos (95% da economia do país) e, ao mesmo tempo, de hostilidades na região. Unindo esse elemento econômico às tensões étnicas que insistem em assolar o continente africano como um todo, mas hoje especialmente o Sudão do Sul, vimos um país nascer, porém já iniciar sua história com massacres e mortes. Despreparo de um país recém-criado em lidar com a situação? Corrupção política? Escasso apoio da comunidade internacional? Talvez todos esses elementos juntos ou nenhum deles sejam capazes de explicar a situação. [Reveja post de 2012 no blog a esse respeito aqui.]

Em um contexto como tal, fato é que nem o Sudão nem o Sudão do Sul puderam ainda vislumbrar o conceito de estabilidade nos últimos anos. Desde dezembro de 2013, contudo, uma situação cada vez mais crítica se alastra no Sudão do Sul sem que alcance os noticiários internacionais, em repetição de história já antes contada, como em Ruanda, há exatos vinte anos.

Tudo (re)começou no final do ano passado quando o ex- vice-presidente Riek Machar foi acusado pelo presidente Salva Kiir de uma tentativa de golpe de Estado, refletindo uma crise política enraizada em diferenças étnicas. O presidente Kiir é da etnia Dinka, predominante no país, enquanto Machar pertence à etnia Lou Nuer. [Mais informações aqui.] Desde 2011, conflitos étnicos têm sido constantes entre as comunidades, exacerbando-se nos últimos cinco meses e levando as Nações Unidas a alertarem a respeito da possibilidade de genocídio no país, além dos inúmeros crimes contra a humanidade cometidos por ambas as partes em conflito.

Segundo informações da ONU, 716.500 pessoas foram deslocadas no interior do Sudão do Sul desde dezembro, e 166.900 tornaram-se refugiadas em países vizinhos, mesmo com a presença de uma Missão da ONU no país (UNMISS). Números expressivos que levaram Ban Ki-moon (foto) e John Kerry (sempre ele) a mediarem um “Acordo para reduzir a crise no Sudão do Sul” na sexta-feira, com o compromisso de Kiir e Machar em assumirem um cessar-fogo que permitisse o apoio humanitário às vítimas.

Menos de dois dias depois de o acordo ter sido saudado internacionalmente, já foram registrados novos conflitos na cidade de Bentiu, estratégica pela produção de petróleo, e as partes se culpam mutuamente pelo reinício das hostilidades e pelo fiasco no diálogo.

À beira de uma epidemia de fome que pode vitimar 50 mil crianças (!) em um horizonte de poucos meses e se tornar uma das mais graves crises no continente africano em comparação com as últimas décadas, dizer que a situação demanda uma ação urgente é pouco. Entretanto, a perversa mistura de motivações e interesses políticos, econômicos e étnicos traduz uma situação de instabilidade em que a comunidade internacional se faz incrédula, ao mesmo tempo que impotente/indiferente diante de tamanha violência que se repete na região…


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