E a Costa do Marfim?

Por

Enquanto os holofotes internacionais se voltam para o Egito, a Líbia e, enfim, o Oriente Médio em geral revoltado com a permanência de ditadores no poder mesmo diante da insatisfação popular, pouca atenção tem sido direcionada à Costa do Marfim – país africano que enfrenta situação trágica e que, em muitos aspectos, se assemelha ao contexto árabe atual de reivindicação pelos próprios direitos.

No final de novembro de 2010, foram realizadas eleições presidenciais no país, momento a partir do qual Alassane Ouattara foi eleito e reconhecido como legítimo chefe de Estado pela comunidade internacional. Contudo, o antigo presidente, Laurent Gbagbo, se recusou a deixar o poder. Comportamento tipicamente ditatorial e em conseqüência do qual ocorrem muitas mortes.

Até agora, estima-se que o número de pessoas mortas – decorrentes dos conflitos existentes entre os apoiadores do presidente eleito e os defensores do antigo presidente (hoje “presidente de fato”, apesar da ilegitimidade social) – some aproximadamente 500, sendo que mais de 200 mil pessoas já fugiram do país em busca de paz nas redondezas. As forças de paz da ONU afirmam não possuírem condições de proteger toda a população e a perspectiva de uma nova guerra civil é notável.

O Conselho de Segurança da ONU já se pronunciou, assim como os Estados Unidos e a comunidade internacional em geral. Entretanto, o que pode se esperar de uma situação assim? A embaixadora do Brasil em Abidjã, cidade mais populosa do país, chegou a afirmar ontem que “a situação é tão ruim, tão ruim, que não tem como ficar pior. Esperamos por uma solução nos próximos dias. […]”. No mínimo complicado, não?

O que fazer diante de um contexto como este? Certamente a organização civil é imprescindível, mas exigir tal articulação de um povo que sofre de carências extremas e luta diariamente pela própria sobrevivência em condições adversas é algo que parece exigir um estudo de caso mais aprofundado – e não uma mera comparação com a situação dos países árabes bem-sucedidos em seus intentos reivindicatórios nas últimas semanas. Enquanto isso, sabe-se apenas que mulheres, crianças e cidadãos em geral morrem diante dos desejos de um ditador insatisfeito com o vislumbre da perda de poder…


Categorias: África, Conflitos, Política e Política Externa


0 comments