Duelo de titãs

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Os preparativos para o encontro em meados de março entre Barack Obama e Dilma Roussef já estão lançados. Debates, polêmicas e repercussões internacionais não faltarão. O encontro promete!

A primeira questão que deve ser colocada em tela é a mudança na correlação de forças no sistema internacional. Trata-se, pois, da erosão hegemônica de uma grande potência e da ascensão contínua de uma potência emergente. De um lado, os Estados Unidos e a sua incapacidade de gerir a ordem mundial. De outro, o Brasil e suas aspirações para construir uma ordem mundial mais justa e democrática. A interface entre ambos, à primeira vista, parece irreconciliável, porém, um olhar mais acurado, sugeriria o oposto: uma complementaridade. (Vejam um artigo interessante)

Ser complementar, no entanto, depende do esforço empreendido pelos países para lidar com os possíveis choques de interesses e os harmonizar, na medida do possível. Vale lembrar que tanto Obama como Dilma desejam uma reaproximação (para alguns) ou o fortalecimento (para outros) da parceria estratégica entre os Estados Unidos e o Brasil. À parte dos acordos de cooperação nisso ou naquilo que, como de práxis, serão firmados, dois pontos chamam a atenção: a manipulação cambial e a reforma do Conselho de Segurança.

No primeiro ponto, o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, em visita ao Brasil, para preparar o futuro encontro, veio pedir o apoio brasileiro contra a política cambial adotada pela China. Não faltou à Geithner vários argumentos para persuadir o quão danoso é o yuan desvalorizado para os brasileiros. Um exemplo ilustrativo é que a concorrência chinesa levou a perda de 67% dos clientes dos exportadores nacionais. Porém, há coisas que ele não disse, como demonstrou Carlos Ming. Em específico, se há falta de liquidez e desequilíbrios financeiros, os culpados são os Estados Unidos!

Em relação ao segundo ponto, no domingo, Obama declarou que é contrário ao ingresso brasileiro como membro permanente do Conselho de Segurança. Essa posição decorre do voto contrário do Brasil às sanções ao Irã. O presidente norte-americano também comentou que não levará este tema para a pauta de discussões no encontro, já que o objetivo principal é melhorar o relacionamento entre ambos os países. Porém, a diplomacia brasileira não dá sinais de que o excluirá. Antonio Patriota espera contar com o apoio dos EUA para a reforma do organismo e defende que o Brasil tem credenciais para fazer parte dele.

Os titãs duelam. O velho e o novo. Não por puro combate, mas também como desafio. Contudo, o duelo não é uma crua ode ao confrontacionismo, senão uma maneira de buscar alternativas e soluções entre ambos e entre os dois e o mundo. Desde as independências, os dois países buscaram uma forma de caminhar juntos, de mãos dadas ou não. Há uma boa sintonia. Em geral, os Estados Unidos não ditaram verticalmente o que devia ser feito. Da mesma forma, o Brasil sempre teve que levar em conta as posições norte-americanas no cálculo para atuação. Se Obama quer discutir economia, vai ter que discutir política também. Nosso país não pode prescindir. Um diálogo de alto nível deve levar em conta os interesses em questão, ainda que divergentes.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


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