Duas faces diferentes, uma mesma moeda

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Há muito que as questões de Segurança e de Defesa perfazem a agenda diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Mas não é sempre que os movimentos recentes dessa agenda são compostos por eventos que, de certa forma, surpreendem ou fazem parte daquele seleto grupo dos temas polêmicos. Bom, assim foram os últimos dias, nos quais podemos observar duas questões dessa natureza que merecem ser comentadas. 

A primeira dessas questões é a respeito do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), assunto que sempre traz muito pano pra manga. O Brasil ratificou o tratado somente em 1998, em um momento em que estava assinando e ratificando muitos grandes acordos internacionais que havia deixado para trás nos tempos de ditadura. Mas ainda não ratificou o protocolo adicional. Assinado em 1997 esse documento garantiria inspeções muito mais amplas, possibilitando à AIEA avaliar qualquer lugar que possa ter trabalhos que se relacionem com energia nuclear. Entre especialistas e comentadores da área, o protocolo ainda divide muitas opiniões (clique aqui e aqui para conferir algumas delas). Entre o governo brasileiro e estadunidense também, tendo sido esse um dos grandes focos de divergência entre os dois países. 

Eis que os Estados Unidos indicou mudar sua posição sobre o tema. O tio Sam, ao invés de pressionar o governo brasileiro, defendeu que agora podemos demorar o quanto for preciso para aderir ao protocolo. Uma mudança interessante, mas um pouco repentina em se tratando de política internacional (os EUA já virem indicando isso desde o final de 2011) e podemos nos perguntar o porquê dela. Será que os EUA estariam nos dando certo crédito por nossa nova inserção ou será que apenas viram que era contraproducente ficar insistindo em um ponto tão controvertido como esse e que uma insistência poderia até prejudicar outras negociações estratégicas? A segunda opção parece mais plausível, mas não se sabe ao certo o que motivou a mudança. Apenas podemos dizer que isso encerra uma tensão entre os dois países que vinha se arrastando há alguns anos e legitima a liberdade de não aderir ao protocolo que o governo brasileiro vinha exigindo (veja aqui mais sobre o protocolo). 

Enquanto isso, quase que nos mesmos dias, temos nossa segunda questão surpreendente e/ou polêmica nas negociações de armamentos entre os dois países. O governo estadunidense cancelou a compra de 20 Super Tucanos ao país, referentes a um total de US$ 355 milhões, surpreendendo o governo brasileiro (clique aqui para conferir a nota oficial). Segundo os EUA, foi algum problema na documentação e não nos produtos brasileiros. Mas bastou esse anúncio para a Boeing (responsável pela produção de um dos aviões que estão competindo no projeto de compra de caças da Força Aérea brasileira, o F-18 Super Hornet) rapidamente enviar responsáveis para o Brasil para negociar. Não há como negar uma ligação entre esses dois eventos. Mesmo porque Dilma já indicou que quer finalizar essa compra no primeiro semestre desse ano e represálias brasileiras agora poderia significar sair da disputa. 

Os últimos dias foram agitados para as questões de Segurança e Defesa das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos. Para bem ou para mal, houve mudanças e agitações. Apesar de ambas resultarem de um processo, vieram ao público de maneira repentina e por tratarem de temas sensíveis acabam por ser dois lados de uma mesma moeda. Em outras palavras, uma pode não ter afetado a outra diretamente, mas, com toda certeza, serão consideradas daqui pra frente quando os dois países forem negociar Segurança novamente.


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