Dragão inflado

Por

Recentemente, um termo que andava esquecido voltou às manchetes: o temor da inflação, que a maioria da geração dos anos 90 desconhece e que parecia derrotado indefinidamente, mas permanece à espreita em 2011 e traz dores de cabeça ao governo brasileiro – e a muitos países emergentes. Ok, não é uma crise de hiperinflação como nos bons tempos. Apenas um leve temor de que o governo não consiga cumprir a meta de inflação para o ano. É algo que parece pouco (as previsões são que exceda em 1 ou 2 por cento a taxa esperada, em um país que já teve inflação na casa dos milhares – pergunte aos seus pais), mas reflete uma situação própria dos países que se “safaram” da crise econômica recente.

Aliás, qual o problema da inflação? Basicamente, é um aumento dos preços causado pelo aumento do consumo que não é acompanhado pelo aumento da produção, típico em economias aquecidas. E a medida favorita dos governos para combatê-la é o aumento da taxa de juros (que diminui o consumo). Esse é o drama dos países que escaparam da crise: sua blindagem se deu justamente pela alta de preços de commodities e mercado interno aquecido; agora, pagam o preço, com inflação crescente e seus riscos inerentes, principalmente no que se refere à balança comercial. Esse é o temor da China, que depende de suas exportações mas ao mesmo tempo sofre internamente com seus efeitos.

Para conter o temor do mercado, os governos agem, cada um ao seu modo. E isso sempre traz algumas surpresas no caso chinês, pois seu regime diferenciado permite jogar com regras um pouco diferentes. Diriam que por causa de seu comunismo? Muito pelo contrário, a China se sobressai justamente por ser o país onde o capitalismo de desenvolve de maneira mais selvagem no mundo – e sob a tutela do Estado. Para se ter uma idéia, já existe por lá o incrível arroz artificial (uma nutritiva mistura de batata-doce e plástico, a qual comer uma tigela equivale a ingerir um saquinho de supermercado). Assim, a China via de regra age como bem entende em termos econômicos, como alterar o câmbio artificialmente

A surpresa maior, contudo, é justamente um “despertar” ortodoxo que ocorre nesse momento: assim como no Brasil, no momento a China aumenta suas taxas de juros (e faz despencar as bolsas asiáticas). A China começa a jogar pelas regras como conhecemos, o que certamente é um sinal de alerta – ou algo estava dando errado em suas vantajosas políticas usuais, ou não sobraram opções. É interessante ver como as coisas funcionarão por lá a partir de agora: esse início de crise inflacionária pode significar alguma mudança de rumo mais normativa na economia chinesa? Mudanças que afetam a segunda maior economia do mundo transbordam pelo globo. E, assim, o duelo entre os dragões, o do Estado chinês e o da inflação, pode ser fundamental para determinar os rumos da economia mundial de agora em diante.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia


2 comments
Duque de Bragança
Duque de Bragança

O aumento da taxa de juros pelo Banco Popular da China é uma medida interessante (0,25%), porquanto, além de favorecer a poupança interna, pode tornar mais atraente seu mercado financeiro. O Brasil é que não pode, de maneira nenhuma, tomar atitude igual, apesar de tê-lo feito (aumento de 0,5%). A maior ameaça é um aumento no já dantesco déficit nominal de R$127,427 bilhões (2010). Onde o governo resolveu cortar gastos? Concursos, contratações e nomeações federais. Bom mesmo seria diminuir o salário dos parlamentares e aumentar um pouquinho o rendimento da poupança.

Bianca Fadel
Bianca Fadel

Ótimo post, Álvaro! Muito esclarecedor mesmo, já que as notícias com enfoque econômico que tratam a respeito de inflação costumam confundir mais que esclarecer este assunto aos leigos.Mas confesso que fiquei chocada com o link sobre o arroz artifical. Realmente assustador pensar em até que ponto o ser humano é capaz de chegar com vistas a ganhos financeiros...Beijos e até mais!