Dos males, o menor

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É o tema da vez: o norte da África anda em polvorosa com o que andou acontecendo na Tunísia, e mais recentemente no Egito. Com o ineditismo do modo como os protestos são organizados (é a informatização da revolução!), já há quem diga que podemos esperar um efeito dominó em diversos países africanos, com relatos de protestos estudantis no Sudão e pela renúncia do presidente do Iêmen. Será? A cautela é necessária em todo tipo de análise, e não sei se podemos dizer que está havendo algum tipo de revolução naqueles países.

A Tunísia parece um caso exitoso. O malvado Bem Ali foi removido do poder e as massas populares terão seus anseios respondidos. Bem, a coisa não é tão simples – boa parte da estrutura política e social do “antigo” regime permanece intacta (já se fala em governo de coalizão); ademais, foi um movimento de cunho popular, mas surgido de massas estudantis, letradas, não algo espontâneo. Não sei se podemos encarar como revolução em seu sentido próprio algo que foi gestado por uma elite intelectual insatisfeita e que não tirou do governo peças-chaves do antigo establishment.

Já no Egito, a coisa está mais complicada. O país é muito diferente da Tunísia em termos políticos e econômicos, com a semelhança de terem um presidente longevo e tirano. No país dos faraós a revolta popular se origina no caos e no colapso da economia, por isso é bem mais visceral que na Tunísia, mas provavelmente terá problemas em conseguir algo de concreto. Hosni Mubarak já cortou a internet e telefone (meios de mobilização para os protestos) e rapidamente articula sua defesa com os militares, enviando os tanques às ruas e colocando militares e pessoal do serviço de inteligência em postos importantes de seu governo (incluindo a vice-presidência). Há sinais de divisão nas fileiras do exército (com tropas se negando a usar a força contra a população), mas com as manobras de Mubarak o cenário é tenebroso no Egito, indo de possível continuidade de seu estilo com os militares (mesmo que saia do poder) a uma guerra civil.

A isso permanecem atentos os EUA, especialmente no caso do Egito, aliado histórico em um dos mais importantes atores na política externa da região. Mudanças nas políticas desses países podem ter conseqüências graves no jogo das relações regionais, e fazem com que surja, por exemplo, o temor da ascensão do radicalismo islâmico (possível nos dois casos, apesar de improvável, na Tunísia dada a moderação dos que se encontram no poder e no Egito pela força dos militares). Mas há necessidade de ação?

Não considero que essas manifestações tenham pouco significado, nem que deixem de ter seu valor contestatório. Há insatisfação com governos tirânicos, e isso é um indício dos mais saudáveis por aquelas bandas. Por menores que sejam, mudanças são sempre bem-vindas; contudo, precisam de um evento muito drástico para que ocorram em um espaço de tempo curto: via de regra, são bem demoradas. Por mais que possam estar inspirando outros movimentos semelhantes, provavelmente não vão causar grandes inflexões. No caso, parece que está havendo, no máximo, a opção pelo “menos pior”. E assim, por enquanto, a insatisfação popular ainda não conseguiria seus objetivos. Por enquanto…


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