Dor maior

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E voltaremos às conversas de paz no Oriente Médio. Como anunciado por Hillary Clinton semana passada, Israel quer a paz. Ou, pelo menos, voltar atrás e aceitar a retomada nas negociações de paz com os palestinos. As idas e vindas desse relacionamento conturbado já não são novidade nos últimos 17 anos, e não seria surpresa se dessem em nada, visto que ambas as partes vão ter que atender a concessões que não estariam tão inclinadas a aceitar. A vontade de negociação parece legítima, mas sua viabilidade já está comprometida – o primeiro ministro israelense Netanyahu já prevê que as exigências centrais de seu país, como o reconhecimento do Estado judeu e a manutenção de suas premissas básicas de segurança, não serão aceitas pela outra parte.

Ora, não é novidade que se a solução fosse fácil eles não estariam negociando há duas décadas. A diferença agora é que existe um catalisador improvável nessa equação agora, e adivinhem só… o Irã, de novo! No momento, Israel está com uma preocupação terrível quanto ao país de Ahmadinejad, e não surpreende que o anúncio da retomada de negociações tenha ocorrido quase que ao mesmo tempo que o anúncio da ativação do primeiro reator nuclear e da apresentação de um drone (avião de ataque não-tripulado) produzido totalmente no país, um dia depois. Israel já está com o dedo no gatilho para um ataque preventivo e só não o fez ainda pois os EUA estão livrando a cara do Irã (quem diria…) garantindo que não conseguiriam uma bomba em menos de um ano e dissuadindo Israel dessa ação desesperada.

Isso me lembra do famoso personagem de Luis Fernando Veríssimo, o Analista de Bagé – um nada ortodoxo psicólogo que tinha uma técnica diferente para curar seus pacientes, o “joelhaço”. Basicamente, desferia um belo golpe no estômago para fazer o paciente esquecer da dor ou dos problemas na cabeça com a dor física. Bem, Israel já te uma dor de cabeça tremenda com a questão Palestina. Mas comparar homens-bomba com armas nucleares é até injusto, e na sua visão já levou um “joelhaço” que até nome tem, Bushehr. Resta saber qual dor vai causar mais estrago, e provavelmente nem Israel tem ideia.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Muito interessante esta análise, Álvaro.Li um artigo recentemente que também me intrigou. Segue ele: http://www.stratfor.com/weekly/20100823_israeli_and_palestinian_peace_talks_again?utm_source=GWeekly&utm_medium=email&utm_campaign=100824&utm_content=readmore&elq=3f388265f68e442581307281e9a46caf. Basicamente, a idéia é a de que as negociações de paz israel-palestinas ocorre mais pela conveniência do que pelas necessidades reais de pôr termo ao conflito. É mais fácil sentar à mesa para discutir do que negar e receber uma taxação negativa.E, em meio a essa "cordialidade", os EUA exercem um papel fundamental. E uma coisa que eu concordo bastante é que a inclusão da questão iraniana no diálogo presente foi muita sacanagem!Abraços