Dominó mundial

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Parafraseando Hamlet, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. No caso das Relações Internacionais, tal colocação shakespeariana revela grande veracidade quando transposta a um nível horizontal. Há muitas conexões entre temas e fatos internacionais que nem imaginaríamos. Pois há discussões recentes que se em sua comoção isoladamente já apresentam relevância para o cenário global, associadas podem guardar a chave para a análise da conjuntura atual e do que pode vir a ocorrer nos próximos meses.

Dois temas disputam o titulo de “mais pungente” da atualidade: a tensão entre as Coreias e o infindável tango nuclear iraniano. E ambos têm um denominador comum na relação entre China e EUA. Se comercialmente são grandes parceiros, politicamente há muitas rusgas, desde o fim da Era Bush. Hillary Clinton, por exemplo, está em Xangai a pedir que os chineses deixem de desvalorizar o Yuan (a que receberá o “não” de praxe). A situação tende a piorar e se mostra delicada quando pensamos nos tais fatos recentes.

A crise das Coreias está enfrentando o que os autores clássicos como Deutsch chamam de “escalada de conflito”. O que começou como exigência de pedidos de desculpas pelo afundamento de um navio já se tornou bloqueio de comércio e ameaça de exercícios militares de fronteira, além de planejar levar a disputa ao Conselho de Segurança da ONU (CS). Não falta muito para que alguém dê o primeiro tiro e recomece a hostilidade. Provavelmente é a maior crise desde a guerra nos anos 50 (lembrem que, tecnicamente, os países ainda estão em guerra visto que não houve tratado de paz, apenas um armistício). E a China e os EUA com isso? Os norte-americanos estão do lado da Coreia do Sul, endossam o discurso pelas desculpas oficiais e estão prontos para acionar seu hard power caso necessário. Já a China se mostra reticente e vaga, clamando por sensatez das partes. Obviamente penderia para o lado de seu apêndice coreano em caso de conflito, e nisso já entraria em uma contraposição aos EUA.

Do outro lado da Ásia, a crise da moda tem como protagonista o Irã. Aquela mesma, discutida à exaustão, que parecia mediada por Brasil e Turquia, mas que o governo dos aiatolás insiste em azedar. O que se sabe basicamente é que a turma do CS provavelmente aprovará uma rodada de sanções (que provavelmente não serão eficazes). A China até apóia as sanções, mas como a diplomacia chinesa já se mostrou volúvel e enigmática anteriormente, se esforçando para mostrar que não foi cooptada pela norte-americana, e não é tão absurdo suspeitar que troquem de lado caso o acordo encabeçado por Lula tenha sucesso na AIEA. Romperão a “aliança” dos membros permanentes pelas sanções? Se isso vier a ocorrer, esperem mais troca de farpas entre Pequim e Washington.

Vejam que são duas situações dispostas como duas peças de dominó, enfileiradas. Se tocada, qualquer uma delas vai necessariamente alterar o estado da outra. Se a tensão coreana escalonar até o conflito armado, China e EUA muito provavelmente tomarão posições díspares e isso influenciará as negociações sobre sanções ao Irã. Concomitantemente, o desenrolar das negociações no CS podem afetar sensivelmente as posições quanto à crise na Coréia e decidir qual o resultado – EUA e China agindo juntos para debelar as tensões ou rivalizando-se por seus aliados como reflexo de posições opostas no CS.

É mais provável que a peça a ser derrubada primeiro seja a da península coreana, mesmo pela rapidez com que tem se desenrolado. Como afirmado anteriormente, devemos esperar pelo desenrolar do conflito para averiguar suas implicações, mas neste caso o resultado a que se está se tomando é o pior possível, e deve-se torcer para que não a queda dessa peça não tenha forças para iniciar um nefasto efeito dominó ao redor.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


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