Dois problemas, nenhuma solução

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Uma vez me falaram que a Nigéria era uma das potências africanas. Abuja, segundo os mesmos, era uma capital pulsante e dinâmica, talvez um dos principais indícios de um continente em rota ascendente. Há números para corroborar esta visão, o seu PIB cresceu 8,4% em 2010, 7% em 2009 e 6% 2008. Contudo, nem tudo fica ao alcance da visão sob a ótica meramente numérica. O crescimento econômico, como em outros incontáveis casos, não se transformou em melhorias sociais significativas, muito pelo contrário. A corrente de desigualdade, pobreza extrema e marginalização só aumentou, em proporção maior que a dos índices da economia.

Na verdade, apesar da ressalva anterior, os números vão voltar para tentar nos ajudar a entender o cenário. Para o Banco Mundial, 80% da riqueza gerada pelo petróleo no país fica nas mãos de 1% de sua população, quadro ainda mais grave quando lembramos que as exportações do combustível representam 40% do PIB nigeriano. A situação é ainda mais crítica no norte do país, predominantemente povoado por muçulmanos. Não houve transição, mas uma ruptura de modelo econômico, o baseada no petróleo substituindo o pautado na agricultura e manufatura, culminando no encerramento de atividades industriais tradicionais. Este quadro é ainda mais intenso no norte.

Muitos governos passaram e pouco mudou, ao menos não para melhor. As refinarias da Nigéria quase não funcionam, deixando o país na constrangedora situação de ter de importar quase a totalidade do combustível refinado que consume, apesar de ser o maior exportador africano de petróleo. Somam-se a isso os subsídios que mantêm o preço do combustível acessível para sua população. Na prática, não surpreende que a receita gerada não resulte em grandes benefícios sociais. Ao mesmo tempo, um seleto grupo enriquece com este contraditório comércio. Goodluck Jonathan, presidente da Nigéria, assumiu o posto pensando em modificar este quadro. O primeiro passo foi dado: os subsídios supracitados foram extintos, o que economizaria ao erário cerca de sete bilhões de dólares por ano. Nada mal, não?

Tudo mal. Afinal, este era o único benefício percebido pela população por viver em país rico em petróleo. Uma série de protestos, greves e manifestações obrigou o governo a mudar o que havia determinado. A sua agenda de reforma, iniciada há menos de um ano, sofreu um golpe duro, na medida em que o fim dos subsídios não durou mais de oito dias. Mesmo assim, antes este fosse o único problema de Jonathan. Desde 2009, espraiaram-se e intensificam-se confrontos entre o grupo Boko Haram e a polícia. As atividades terroristas da organização expandiram-se, atingindo a capital Abuja e manchando as comemorações do último natal. Dois ataques recentes ganharam maior atenção, o primeiro na sede da polícia e o segundo no escritório das Nações Unidas no país.

Enquanto isso, o governo endurece sua mão repressora, tanto no confronto com manifestantes contrários ao fim dos subsídios, quanto no combate ao Boko Haram. Tal fato fica evidente no orçamento para 2012, no qual 20% dos gastos estão reservados para a segurança e defesa. O problema não parece ser religioso, uma vez que grupos terroristas não representam os islâmicos como um todo. Por outro lado, o radicalismo ganha terreno frente a uma população carente de serviços e oportunidades. Neste sentido, focar na segurança tende a acirrar as disputas e intensificar a insatisfação popular. Tudo indica que aquela economia planejada com o corte dos subsídios seria menor que os novos gastos para conter a expansão da violência. Para piorar, os Estados Unidos crêem que o Boko Haram possa estar colaborando com o Al-Qaeda e o Al-Shabab. A Nigéria, no final das contas, ainda não é aquela potência que parecia (e poderia) ser. 


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