Dois gigantes sem condomínio

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Condomínio foi um termo comumente empregado na vigência da Guerra Fria. Designava um ordenamento no qual os países de todo o globo permaneciam ao lado de um dos condôminos, Estados Unidos ou União Soviética, e, assim, coexistiam. Na Ásia, poder-se-ia verificar similitude do condomínio bipolar, não fosse o autonomismo chinês e a inteligência inventiva nipônica, ainda que, em grande medida, apoiada pelos norte-americanos. Adicionalmente, a emersão dos tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan) também evitaram uma fria polarização na porção mais oriental do continente. Embora os gigantes – um comunista, o outro capitalista – não tenham constituído um condomínio sub-regional, não se supõe, de modo algum, a ausência de rivalidades e competição sino-japonesas.

Na classificação de Marcos Aguinis, autor de O atroz encanto de ser argentino, há quatro tipos de países. O Japão pertence a uma categoria exclusiva, qual seja de um país que tinha tudo para dar errado e deu certo. A China, por sua vez, seria uma exceção que tende a se confirmar, à semelhança do Japão, ou um país da primeira categoria, que teve tudo para dar certo e deu certo. Fato é que, por enquanto, observa-se que a China deixou de ser apenas o milenar “império do meio” – raiz etimológica do nome – para se tornar um império global. O Japão não se apequenou perante as suas extensões territoriais e também alcançou o mundo. Enquanto este investiu na produção de bens de elevada tecnologia e adentrou os países, aquele se dedicou à produção (ou replicação?) de bens de consumo em massa e atingiu as esquinas.

Do ponto de vista econômico-comercial, Japão e China tanto se lançaram a conquista do mercado asiático individualmente, quanto cooperativamente, através de arranjos regionais, como em acordos com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ou na Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC). No plano político, as divergências são acentuadas. Não por causa dos sistemas políticos, imbuídos de ideologias diferentes, mas em decorrência de mágoas históricas – a ocupação japonesa da Manchúria nos anos 1930 – que repercutiram nos sistemas de educação, nas desconfianças militares e geopolíticas traduzidas na prática da espionagem e na não-aceitação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança, pleito do G-4.

O mais recente episódio que ilustra as rivalidades entre ambos foi a colisão entre dois navios da Guarda Costeira japonesa e um barco de pesca chinês. Aparentemente, o que era um acidente se tornou um incidente diplomático, que envolveu desde a prisão do capitão chinês, passando pela retaliação chinesa ao bloquear a exportação de minerais raros para o Japão, até o pedido de compensação do prejuízo por parte do último. Por que tanto alarde? Será que não é uma questão de orgulho ferido? Não faz tanto tempo, a China se tornou a segunda maior economia do mundo (aqui), ultrapassando o PIB japonês, posição que o Japão sustentava desde 1968, quando superou a Alemanha Ocidental. (Vejam notícias e análises sobre os acontecimentos aqui, aqui, aqui e aqui)

Segue, então, os dois gigantes asiáticos, sem condomínio e nem plena harmonia. Entre a cooperação e a rivalidade, China e Japão caminham para o cumprimento de seus respectivos destinos, de modo que um permanece atento as ações do outro.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Política e Política Externa


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