Do terrorismo sem terror ao desarmamento sem pudor

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No âmbito das Nações Unidas, não há nenhuma definição para o terrorismo. Comumente, o que se argumenta é que o termo faz alusão ao emprego do terror, disseminando o medo e a violência, em prol de algum objetivo (político, ideológico, religioso, etc.). Por outro lado, há inúmeros acordos no seio da ONU para a proscrição de armas nucleares, com ênfase no discriminatório Tratado de Não-Proliferação (TNP), assunto da reunião desta semana na organização. Na dianteira da luta global contra o terrorismo e as armas nucleares, os Estados Unidos.

Neste fim de semana, o país quase foi vítima de um suposto atentado terrorista. Um carro-bomba foi deixado na Times Square. Artefato amador na opinião dos policiais nova-iorquinos e para o prefeito, Michael Blommberg, mas suficiente para “aterrorizar”, segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. A população norte-americana vive com medo, mesmo que este nem sempre seja real; até um bueiro em chamas se torna assustador (aqui). Dos círculos políticos para as mentes dos cidadãos, o terrorismo se converteu na maldição e na salvação dos Estados Unidos.

A partir do 11/09, qualquer coisa errada é culpa do terrorismo. Qualquer expectativa de seu combate é a salvação. Destarte, embora se tenha produzido distorções, o termo passou a justificar e legitimar inúmeras ações norte-americanas domésticas e pelo mundo afora: fechamento de fronteiras, monopólio na identificação dos inimigos, intervenções pela força, etc. Interessantemente, uma projeção de poder externamente culminou numa intermitente sensação de segurança interna e guerras se tornaram sinônimo de que “o governo está fazendo alguma coisa para proteger o seu povo”.

No entanto, a moda agora é juntar o terrorismo com o combate a proliferação de armas nucleares. Assim se procedeu na nova estratégia global dos Estados Unidos contra o terrorismo e na Cúpula de Segurança Nuclear, no mês passado. O medo é que os terroristas ataquem com armas nucleares, o que só acontece no seriado 24H, com Jack Bauer. Libertar o mundo da ameaça nuclear começa pela contenção do acesso de facções terroristas a armamentos do tipo e não pelo desarmamento. Não adianta tomar uma iniciativa inédita e histórica de divulgar o arsenal nuclear (aqui) e, ao mesmo tempo, Obama declarar que os países que não ratificaram o TNP ficarão menos seguros e mais isolados.

É evidente que ficarão menos seguros. Menos seguros energeticamente, já que o tratado coíbe o desenvolvimento de tecnologia nuclear para fins pacíficos. Menos seguros politicamente, já que a manutenção da paz e segurança internacionais continuará à mercê das potências nucleares do Conselho de Segurança. E mais isolados porque não terão o respaldo do seleto clube nuclear e permanecerão sob pressão da comunidade internacional.

Enquanto persiste a ameaça terrorista, por certo, persistirá a insegurança nuclear. Não necessariamente por parte de grupos ou facções, mas pelo discurso – muitas vezes retórico – que legitima tal ameaça. Todavia, nunca é demais lembrar que a perspectiva de emprego de armas nucleares parte de quem as detêm de fato e quem tem pode despertar a cobiça de quem não possui, inclusive mediante o roubo. O principal inimigo está nas próprias mãos. Se há uma genuína pretensão de combate à posse de tecnologia nuclear pelo terrorismo, o desarmamento pode ser o melhor caminho, ao invés de ficar apenas revendo o TNP, um mecanismo calcado sobretudo na proscrição.


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