Do meio ao inteiro: a marcha chinesa encurtou

Por

O “império do meio”. Eis a raiz etimológica da palavra China. Porém, hoje, é preciso revê-la. A geografia do país não se restringe mais à fértil Terra Amarela dos tempos anteriores a Cristo, muito pelo contrário, ela alcançou o mundo. A China agora é um império inteiro, um império global. E há de assumir novas responsabilidades nas décadas vindouras do século XXI.

De acordo com um recente estudo do National Inteligence Council, há quatro cenários possíveis para o ano de 2025, gravitando entre a competitividade e a cooperação, nos quais a China assume um papel relevante, notadamente, no primeiro cenário: “um mundo sem o Ocidente”. Em outras palavras, o declínio da influência norte-americana e européia em contraposição à ascensão da influência sino-indiana. Tal processo pode levar tanto à reedição da Guerra Fria quanto à conformação de novos arranjos cooperativos inter-hemisféricos.

Enquanto o futuro não chega, o presente da China é testado. A simbiose entre uma economia aberta e uma política fechada acarretou sucessos e suspeitas. Há um produto (ou réplica?) chinês em cada esquina do mundo, mas ninguém sabe às custas de que ou de quantos foi fabricado. É difícil mensurar até que ponto o desempenho econômico do país poderá ser sustentado por um sistema político voltado a si. A pressão cada vez é maior, a começar pela concessão (justa!) do Nobel da Paz deste ano a um dissidente encarcerado, Liu Xiaobo. A comunidade internacional quer a sua libertação, porém, ao mesmo tempo, utiliza o argumento humanitário por razões óbvias: conter a China.

É hora de buscar freios para o gigante. No seu micro-cosmo de poder, a Ásia, a rivalidade histórica com o Japão surge como um desafio. Em recente artigo ao New York Times, o economista Paul Krugman ressaltou que a China é uma superpotência que se recusa a jogar de acordo com as regras, citando o incidente diplomático com o Japão. Não bastasse isso, ambos os países disputam a posse das ilhas Diaoyu (na denominação chinesa) ou Senkaku (denominação japonesa). A potência do norte também não deixa barato. Na semana passada, os ministros da Defesa dos Estados Unidos e da China se encontraram para discutir as supostas ambições navais chinesas no Pacífico. A mídia norte-americana também faz o seu papel: o Washington Post acusou a China de ajudar o governo iraniano a desenvolver mísseis e armas, sendo que Obama já criticou o governo chinês por retroceder nas sanções ao Irã.

A marcha chinesa agora encurtou. Se antes, entre 1934-1935, os comunistas percorreram um longo e intrépido caminho para fugir dos nacionalistas, agora, o tempo e o espaço, mais amplos, parecem menor: quinze anos e o mundo. O objetivo é mais ambicioso: da fuga interna fratricida à hegemonia global unificada. A China já é a segunda economia, tem o segundo maior gasto militar (US$ 100 bi), mas vive, politicamente, nas eras de Mao Tsé-tung. O país exerce um papel importante nas relações internacionais, mas precisa do respaldo e da confiança dos demais países, que questionam econômica e politicamente a China. Segue o império inteiro em sua curta marcha.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Política e Política Externa


2 comments
Thiago
Thiago

Não sei responder ao certo se a China caminha para a dignidade, mas posso afirmar que cada notícia e comentário sobre a diminuição do ritmo chinês me enche de esperança sobre o futuro. Não quero, aliás, ninguém quer viver sob a égide de uma sociedade que tenha como modelo a chinesa, seja no campo dos direitos humanos, dos direitos individuais, do respeito aos cidadãos...

Danillo Alarcon
Danillo Alarcon

Toda vez que leio algo sobre a China, penso em Duroselle. Para ele, uma das grandes regularidades da história é o conflito constante entre eficácia e dignidade humana. De maneira geral, para a sua defesa e aumento da produção o homem se empenha em garantir a eficácia. Esta é compatível com a busca de uma organização cada vez mais disciplinada e diversificada, típica de sistemas de planejamento autoritário, assim, pode-se dizer que eficácia caminha no sentido de um centro único de decisão (política, econômica, ideológica). O princípio da dignidade, em contraposição, vai ao sentido da multiplicação dos centros de decisão. A dignidade traz o desejo do homem de se firmar como pessoa. E a China? Caminha da eficácia para a dignidade? Este é o único caminho? Não tenho respostas. Quiçá mais perguntas.Somente posso parabenizar o Giovanni pela boa análise.