Do Irã à Ira

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[Pessoal, espero não cansá-los com outro post do Irã, mas é que agora ele é a bola da vez, substituindo a Coréia do Norte. Os holofotes das relações internacionais estão direcionados ao país e ele está no comando do grande espetáculo midiático mundial.]


O Irã está perdendo o seu acento e, consequentemente, está perdendo o seu gentílico: agora, quem nasce no país não é iraniano, é irado. Toda essa mudança decorre da última eleição presidencial, realizada há praticamente duas semanas, a qual desencadeou uma onda sucessiva de protestos. Previsível para uns, surpresa para muitos, o fato é que Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito com 62,7% dos votos, enquanto o seu principal opositor, Mir Hossein Mousavi, obteve apenas 33,7% dos votos. Armas nucleares e crise econômica parecem ser uma combinação perfeita para se obter sucesso eleitoral. Fraude ou milagre divino? A festa junina começou no país, só que as bombas não deveriam atingir pessoas…

Para Mousavi, a resposta é clara: a eleição foi uma fraude, uma vez que se cometeram “irregularidades em massa”. Por sua vez, Ahmadinejad replicou comparando a eleição com uma partida de futebol – vejam a exuberância intelectual do governante -, na qual, quando se perde, é natural que os torcedores fiquem zangados. Só não se esqueça, caro presidente, que esses “torcedores” levaram as próprias canetas para votar, pois tinham medo que a tinta das canetas fornecidas pelo governo desaparecesse na cédula, após o voto. Outro ponto chamativo: o comparecimento desta vez foi recorde (o voto não é obrigatório no país), atingindo a marca de 84%. Em 2005, esse número chegou a 51%.

E o aiatolá Khamenei? Um cara bacana que só detém a função de líder supremo político e religioso, controla as Forças Armadas, a mídia e a justiça, declarou que a eleição foi limpa e pediu que os candidatos derrotados apoiassem o governo eleito, ao invés de fazer provocações. Por outro lado, pediu a revisão dos votos. De fato, não se vence uma eleição sem o aiatolá no Irã. Ora pois, por que então não dizer que o resultado é fruto de um milagre divino? Quem vai contrariá-lo? Pois é, pensava-se que ninguém o faria, mas o povo iraniano, ou melhor, irado, não dá sinais de sossego. O aiatolá resolveu entrar na onda do funk e está ficando atoladinho; de figura sacra a estopim de protestos intermináveis.

E Ahmadinejad também vai entrando na dança e se atolando na confusão que se espalhou pelo país. Para alguns pesquisadores, os atos de protesto no Ira assemelham-se àqueles que levaram à Revolução de 1979. Entretanto, naquele ano, o sistema de informação não era tão avançado. As atuais manifestações vão além do que os olhos podem ver e os ouvidos, ouvir. O povo irado não sai à rua apenas gritando “Roubo, roubo, roubo!” ou “Morte ao ditador!”, a rebeldia também é transmitida por sussurros. A censura promovida pelo governo aos meios de comunicação não consegue ser total. A internet e os celulares se converteram em importantes instrumentos de luta: moblizam a população e transmitem informações. A mais recente: o vídeo da morte de uma mulher, Neda, que provocou pesar e ultraje.

Por fim, muitos se perguntam onde estaria o mêssianico Obama nesta hora trágica. Por enquanto, o presidente dos EUA adota uma posição mais comedida, alvo de pressões internas. É possível fazer duas inferências sobre essa postura (a vocês, leitores, caberão fazer outras). A primeira, Obama está contradizendo o seu discurso ao mundo islâmico, proferido no Cairo. A segunda, a retórica norte-americana de intervenção em nome da democracia e dos direitos humanos já não se sustenta por si mesma. E agora, Obama?

Coitado do Irã. Como é lastimável esta transição no país. Talvez, em toda a gramática mundial, nunca a perda de um acento significou tanto.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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