Direção Política

Por

Em meu primeiro post, foram discutidas as razões por trás do FX-2 e suas implicações no cenário sul-americano, na iminência da possível divulgação da escolha em 2009. Após alguns meses e divesos acontecimentos, damos prosseguimento à análise com o foco no desenvolvimento do projeto em si.

O FX-2 (histórico aqui) teve grande repercussão na mídia após o 7 de setembro, quando houve a divulgação do início das negociações com os frnaceses, antes da finalização do relatório técnico da Gerência do Projeto. Isso agitou o Congresso, fez com que as outras empresas se sentissem prejudicadas e alterassem suas ofertas, eviassem representantes para audiências públicas e pôs o Miistério da Defesa em uma situação constrangedora. Com todos esses percalços, o Projeto foi sendo procrastinado e a data de entrega do relatório final de escolha, prevista para o dia 23 de outubro de 2009, data simbólica do Dia do Aviador, acabou ficando para janeiro desse ano.

Mesmo assim, com certa estranheza, no fato do resultado final ter vazado e inidcado a preferência da FAB pelo aparato sueco, além de deixar o francês em último lugar, ao que o resultado final foi divulgado coincidentemente omitindo a ordem de preferência.

Ficam alguns questionamentos desses fatos. O mais contundente é que se as negociações políticas ocorreram, por que da realização do Projeto em si (que poderia ser visto como um grande desperdício de tempo e dinheiro)? Isso ocorreu pois era um projeto anterior e atrelado à Estratégia Nacional de Defesa (END). Então, por que delegar a escolha à FAB se a decisão final ficaria nas mãos do governo?

A isso podemos chamar de “direção política” das Forças Armadas. Sob a orientação da END, busca-se entre outras coisas o fortalecimento da indústria de defesa nacional e o estabelecimento de uma política de defesa em longo prazo. Isso incorre na consolidação do Ministério da Defesa, um órgão civil e relativamente recente, que “capenga” pela falta de comunicação com militares e de uma política conjunta. Ademais, desde a Constituição de 88, o presidente é o chefe das Forças Armadas, logo, as decisões relativas às mesmas, incluindo renovação de esquadrilhas e compras de material bélico tem de passar por sua anuência. Os militares teriam o know-how e conhecimento das necessidades, mas a palavra final recai sobre o Executivo, que define a política do país. O apoio a uma vaga permanente no Conselho de Segurança parece valer o preço salgado dos Rafales.

Isso não ocorre apenas no Brasil. Foi citado no primeiro post o caso da Índia, que está por adquirir mais de 120 caças para ocupar seus novos porta-aviões em um dos maiores negócios de Defesa no mundo e que afetará consideravelmente o mercado da aviação militar mundial, com cifras que chegam a 10 bilhões de dólares, bem como a balança de poderes na região. A grande parceira da India na área tem sido a Rússia, que fornece aeroplanos à marinha indiana e desenvolve em conjunto um projeto de caça de 5ª geração, o PAK-FA (ao qual curiosamente o Brasil foi convidado a participar, mas ainda é um projeto muito nebuloso). Logo, em um primeiro momento era de se esperar que os russos estivessem no páreo com seus MIG-35, mas a divulgação das empresas selecionadas para concorrer, em dezembro de 2009, surpreendeu a mídia especializada, ao encaminhar as propostas a duas empresas norte-americanas (amplamente favoritas) e aos franceses (sempre eles, tentando empurrar seus brinquedinhos caros para o terceiro mundo).

No caso, pode-se vislumbrar que há algo parecido com o caso brasileiro de “direção política” das forças armadas: é de se supor que os militares indianos estejam familiarizados com o equipamento russo e o prefiram (sem entrar nos méritos técnicos), mas pesa nesse caso o volume da compra e a notável intenção norte-americana de fortalecer sua presença na região, fomentando boas relações e forjando uma vinculação estratégica com um pólo de influência. Por outro lado, a Índia só tem a ganhar com essa compra aos norte-americanos, adquirindo material de qualidade, e quem sabe uma mãozinha na busca pelo lugar no CS.

Como visto, a ingerência do Governo nos negócios antes restritos às Forças Armadas não é algo restrito ao Brasil. Portanto, não podemos pensar na estratégia de Lula como um capricho ou precipitação, mas o bom e velho “manda quem pode, obedece quem tem juízo”…


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Defesa, Paz, Segurança


0 comments