Diplomacia 2011

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Já que estamos na onda dos vazamentos diplomáticos do Wikileaks, vamos continuar falando de diplomacia, mas no caso do Brasil, pois temos a possibilidade de algumas inflexões (e conseqüentes reflexões) interessantes no horizonte. Segundo consta, a presidente eleita já delegou a pasta das Relações Exteriores para Antônio Patriota, diplomata de reconhecida carreira no Itamaraty, incluindo a função de embaixador nos EUA e participação ativa no quadro atual.

Bem, se estão dizendo que o governo Dilma será o “Lula III – o retorno”, ao menos na área internacional parece que a banda vai tocar de outro jeito. Em entrevista ao Washington Post, Dilma já mostrou posição contrária a um determinado posicionamento da diplomacia lulística, a ambigüidade quanto ao tratamento do tema de direitos humanos no Irã (com a abstenção do Brasil na votação da ONU condenando o apedrejamento de mulheres). Isso, somado à ascensão de Patriota (o qual, segundo o Wikileaks – olha eles aí! – não vê com bons olhos o país de Ahmadinejad) parece que vai dar um rumo diferente ao Brasil, pelo menos nessa questão.

Ora, como já analisamos aqui, sabe-se que a política externa brasileira geralmente é da competência do próprio Itamaraty, que com sua burocracia altamente capacitada e especializada quase que funciona como um órgão à parte do Executivo. De fato, a diplomacia presidencialista com um caráter mais personalista veio com o presidente Lula, cujas visões batiam com as de seus camaradas do Itamaraty, na busca incessante pela projeção internacional do país. Não entremos nos méritos de discutir se estavam equivocadas ou não; mas, agora, com o país relativamente consolidado externamente e parte relevante na maioria dos grandes fóruns multilaterais, poderia deixar alguns rumos mais extravagantes ou polêmicos em favor de algo mais sólido ou cauteloso.

Vejam o caso do Irã: o Brasil até agora sempre se pôs à disposição para ajudar, como uma opção além do uso de força e sanções. Ótimo para o país, em longo prazo, de fato, pois credencia o país como um interlocutor aberto e uma opção de negociador no cenário internacional. Agora, como o Irã insiste em não querer ser ajudado (a bola da vez é terem confirmado a auto-suficiência na capacidade de produção de combustível nuclear), pode ter chegado o momento de mudar alguns rumos e evitar “queimar o filme”, por assim dizer, da diplomacia brasileira.

Isso vale para alguns outros casos, e podemos apenas especular sobre como outras polêmicas de Lula serão tratadas por Dilma. Pode até ser, inclusive, que se volte ao modelo “anterior”, com o Itamaraty exercendo uma agenda “própria” e sem tanta definição por parte do governo, que provavelmente já estará enrolado demais com os problemas internos. Independentemente da sua natureza, alguma mudança virá, sem dúvida.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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