Dias contados

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Caro leitor da Pagina Internacional, se porventura planeja visitar o centro histórico de Bruxelas, a Torre Belfry em Bruges ou o Gite Markt renascentista da Antuérpia, saiba que deve apressar um pouco seus planos, pois a Bélgica corre o risco de desaparecer. Ok, não chega a ser exatamente “desaparecer”, em uma perspectiva alarmante como ser invadida pelos mares como seus vizinhos holandeses; mas o risco da separação política é iminente, e a Bélgica como é conhecida não será mais a mesma.

A questão é que as eleições parlamentares gerais belgas, ocorridas no dia 13, apontaram uma vitória surpreendente dos separatistas flamengos. A título de explicação, a Bélgica é um país dividido, criado pela Inglaterra no século XIX como estado-tampão entre Holanda e França (dizem as más línguas, com o know-how adquirido na criação do Uruguai durante a mediação do conflito cisplatino entre Brasil e Argentina), e que no processo gerou uma população urbana e francófona ao sul (na região da Valônia), contrastando com o norte, de idioma flamengo (a região de Flandres). Há tempos ocorre muita discussão acerca de um desejado processo de secessão por grupos radicais em ambos os lados da “fronteira”, mas que nunca teve muita viabilidade.

Todavia, com a vitória de partidos separatistas, em especial o partido flamengo N-VA, a cisão se tornou um fato concreto – ao menos em um futuro próximo. Independentemente do resultado final (Valônia se unir à França? Flandres à Holanda? Dois estados independentes?) é praticamente certo que em algum momento nos próximos anos a Bélgica deixará de existir como é hoje. Entretanto, apesar do líder do N-VA, Bart de Wever, ter a divisão da Bélgica como meta principal, isto ocorreria através de um processo político gradual. Portanto, nada de comoção ou revoluções abruptas – suas maiores ambições no momento seriam reformas internas, como o sistema previdenciário, e a correção de privilégios do confuso sistema eleitoral belga.

Tendo em vista a autodeterminação, o modo como os fatos estão se desenrolando e a comparação com outros movimentos separatistas violentos mundo afora, é interessante apreciar esse movimento que, aparentemente, obtém seu objetivo, através de via pacífica e política. Há de se ressaltar, porém, que existe um certo perigo quanto a consequências no âmbito regional, pois a vitória dos separatistas chega no momento em que a Bélgica assume a presidência rotativa da UE, pelos próximos seis meses. Em um ambiente de incerteza política quanto aos rumos da nação, alianças delicadas e reformas complexas, a Bélgica vai assumir a liderança de um bloco em crise institucional e econômica. E a última coisa que a Europa precisa é de um timoneiro mais ocupado com seus afazeres pessoais que com a condução do navio durante uma tempestade.


Categorias: Conflitos, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


1 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Álvaro, apenas um comentário a despeito da Bélgica. É interessante notar que o país foi criado, em 1831, nos moldes do Uruguai (1828), isto é, como um Estado-tampão para amenizar a rivalidade entre potências. No caso uruguaio, entre Brasil e Argentina; no belga, entre as potências do Concerto Europeu.Os ingleses seguiram a mesma lógica adotada na América do Sul. Enfim, fica esta curiosidade.Abraços.