Diamantes de sangue

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E não é que Naomi Campbell se encontra mais uma vez nos tablóides internacionais? Só que dessa vez o assunto não são suas destemperadas reações que já renderam tantos escândalos. O caso atual é que a top model depôs ontem no Tribunal Especial de Haia destinado a julgar as acusações de crimes de guerra contra o ex-presidente da Libéria, Charles Taylor.

Arrolada entre as testemunhas do processo, Naomi confirmou ter recebido diamantes de presente no ano de 1997, por ocasião de um jantar de caridade na casa de Nelson Mandela, presidente sul-africano à época. Com essa informação, a promotoria pretende vincular Charles Taylor, também presente no dito jantar, aos diamantes – já que este foi visto conversando com a modelo durante o evento e demais testemunhas afirmaram ter escutado o então presidente da Libéria dizer que gostaria de presenteá-la com diamantes.

A grande polêmica não envolve o encantamento que a modelo pode ter motivado em Taylor, despertando-lhe a ânsia por agradá-la com mimos ou diamantes, os melhores amigos das mulheres, como se diz por aí. O que preocupa o Tribunal de Haia é a origem dos tais diamantes e a forma como estes podem ter financiado a guerra civil de Serra Leoa, país vizinho à Libéria.

O ex-presidente liberiano possui contra si 11 acusações de crimes de guerra e contra a humanidade que são relacionadas à sua possível influência na guerra civil de Serra Leoa (mais informações aqui). Taylor está sendo investigado por vender diamantes e comprar armas para a “Frente Revolucionária Unida de Serra Leoa”, grupo rebelde famoso por atrocidades (como amputar mãos e pernas de civis) durante a guerra civil que durou quase 10 anos no país, iniciada na década de 90. A instabilidade política de Serra Leoa – bem como da própria Libéria à época, articuladas com a venda de diamantes para o incremento dos armamentos utilizados no período de crise revolucionária, provocaram a morte e a mutilação de milhares de pessoas, chamando a atenção da mídia internacional e dos ativistas em defesa dos Direitos Humanos.

O início do julgamento internacional de Taylor deveria ter acontecido em 2007, mas seu primeiro depoimento aconteceu apenas ano passado e a previsão é de aproximados 18 meses de trâmites para a conclusão do processo para o qual tantos flashes se voltaram nessa semana de testemunho de Naomi Campbell.

Charles Taylor não é acusado por cometer os crimes pessoalmente, mas existe forma mais direta de cometer crimes do que apoiar, ordenar ou compactuar com estes atos? A polêmica envolvendo diamantes na África já foi tratada aqui no blog, e certamente se encontra na raiz das discussões em Relações Internacionais envolvendo os conflitos na Libéria e em Serra Leoa.

Resta apenas imaginar se Taylor um dia imaginou que um “inocente” agrado a uma mulher atraente renderia subsídios para reforçar uma acusação de crimes de guerra contra ele…


Categorias: África, Polêmica


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