"Dia de Ira"

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“O Brasil deplora veementemente todas as ações de discriminação e incitação ao ódio religioso que vêm ocorrendo em várias partes do mundo. Muitas vidas inocentes foram perdidas por causa da intolerância e da ignorância.”

A contundente declaração brasileira acima, proclamada no último dia 10 de março a respeito do tema ‘liberdade de religião e crenças’, por ocasião da 16ª reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, hoje pode ser considerada mais verdadeira que nunca.

Neste 01 de abril, foi registrado o pior ataque contra a ONU no Afeganistão desde 2001. Pode até parecer mentira, mas este ataque foi, na verdade, motivado por um ato polêmico de intolerantes pastores evangélicos norte-americanos – o que causou um “Dia de Ira” por parte de afegãos revoltados.

Na Flórida, há aproximadamente 20 dias, o pastor Wayne Sapp queimou uma cópia do Corão, o livro sagrado muçulmano em sua igreja, alegando que este é responsável por crimes diversos na sociedade atual. Sapp consumou a promessa do pastor Terry Jones que anunciou a “idéia” no aniversário dos atentados de 11 de setembro ano passado, mas não a concretizou após fortes críticas sociais. Nesta ocasião, até Obama se posicionou afirmando que a idéia do pastor deveria ser deixada de lado, na medida em que se mostrava contrária aos valores americanos de tolerância e liberdade religiosa.

Contudo, com a divulgação deste “feito norte-americano” na mídia nos últimos dias, a ira afegã foi atiçada, reforçando a triste máxima de que intolerância gera cada vez mais intolerância. Desta forma, nesta sexta-feira houve um dia de fortes protestos no país que culminou com a morte de cerca de vinte inocentes, sendo ao menos sete funcionários das Nações Unidas em Mazar-i-Sharif.

Infelizmente, nas Relações Internacionais atuais ainda existem desafios enormes no que tange à questão da tolerância religiosa. Esta idéia, discutida inclusive na última reunião Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, remete à perspectiva de respeito mútuo entre diferentes crenças e religiões, sempre prezando pela paz entre os povos.

É complicado determinar a culpa de uns ou outros nesta situação pontual apresentada. Aqueles que atearam fogo ao livro sagrado muçulmano nos Estados Unidos são tão culpados por tais mortes quanto aqueles que pegaram em armas no Afeganistão? A justiça e os órgãos competentes poderão julgar devidamente a questão, porém não se pode negar que o sangue dessas vidas inocentes hoje mancha o histórico de todos aqueles que desconhecem as noções de respeito e tolerância aos demais, em todas as instâncias possíveis. Assim evidencia-se, infelizmente, a violência e a discriminação em um cenário internacional que carece de diálogo e esperança de resolução pacífica dos conflitos e das diferenças em geral.

[A pergunta que fica é: até quando?]


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


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