Devo, não nego…

Por

E a gente acha o impostômetro ruim….

E os EUA estão longe de pagar quando puderem. 10 anos mantendo duas guerras do outro lado do mundo, desastres naturais e ambientais (de furacão Katrina a vazamento de petróleo sem precedentes no Golfo do México) e uma crise financeira internacional tiveram seu preço para os EUA – e bem salgado, 14 trilhões de dólares. Todos os dias sai algo no noticiário sobre a briga do presidente Obama com o Congresso pra evitar o calote da dívida pública norte-americana. Agora, muita gente nem percebe, mesmo por que essa é uma notícia que passa às vezes como uma nota de rodapé, e na verdade é uma das mais importantes guinadas no cenário internacional nos últimos anos.

E por que isso? Bom, vamos por partes para entender a gravidade da coisa. Quando falávamos em calote de países como Brasil, México, Grécia, era até de se esperar – são (ou eram…) economias fragilizadas por algum fator, de inflação inercial e crise sistêmica a má-administração. Pois bem, no momento em que os EUA correm esse risco, tem alguma coisa MUITO errada na economia mundial. Primeiro, por que o administrador mais poderoso do mundo, outrora credor e que sempre teve suas contas em dia, de repente não consegue mais honrar seus compromissos. Segundo, se isso ocorrer vai levar um monte de outros países junto num efeito cascata – e isso horroriza a China, a maior credora dos EUA.

O maior drama para Washington, contudo, é interno. Os reflexos da crise econômica ainda andam a galope por lá, com o desemprego, queda na renda e endividamento das famílias, enquanto os gastos do governo explodiram, de envio de tropas à criação do plano de saúde público e capitalização de bancos e montadoras automotivas. Foi um grande azar que tantos problemas tenham se acumulado e estourado ao mesmo tempo, mas é uma mistura de decisões ruins (como invadir o Iraque) e falta de regulamentação financeira (que possibilitou a bolha imobiliária) que causou essa dívida inédita. A solução para Obama é negociar com os partidos a elevação do teto da dívida, pela primeira vez na história dos EUA, o que deve ser conseguido hoje, para alívio de meio mundo.

O problema na acaba por aí. Aumentar o teto da dívida não apenas significa que o calote não será dado, mas que os gastos vão acabar aumentado ainda mais para por as contas em dia. O desafio que fica é planejar a austeridade para o ano seguinte, o corte de gastos e redução de déficit do Estado. Leia-se: acabar com pensões, seguros e benefícios, fazer demissões. No contexto em que os EUA se encontram, isso é uma péssima notícia. Se no âmbito externo essa crise tem seus efeitos (como o dólar em queda livre, a ascensão econômica da China e agora o avanço iraniano como poder militar dominante no Golfo, agora sem a presença permanente dos EUA), internamente Obama perdeu popularidade em um nível absurdo. Isso explica, aliás, a briga com os partidos, estando tão próximos das próximas eleições presidenciais. Em um país onde fazer plano de saúde pública é “comunismo”, o “presidente da esperança” parece cada vez mais constrangido por fatores fora de seu alcance e impotente para fazer valer suas mudanças.

O fato é que, mais do que nunca, o mundo acompanha atentamente o que se passa em Washington. O que for decidido hoje vai ter seus efeitos não apenas nos EUA, mas em boa parte das economias do mundo, para bem ou mal. É complicado até mesmo definir quais serão os efeitos em si dessa crise acentuada; a certeza é que serão profundos e sistêmicos. Seja qual for o resultado, no fim das contas vemos que, por mais mal das pernas que ande, os EUA ainda são a economia mais importante do mundo. Ainda…


Categorias: Américas, Economia, Estados Unidos, Política e Política Externa


3 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Adorei o texto, Álvaro! É uma reflexão que está realmente em alta nos últimos dias e não poderia deixar de ser abordada aqui no blog! =)Tempos críticos são esses em que vivemos, não? Quem poderia imaginar uma situação assim sendo vivida pelos EUA há poucos anos atrás? Beijos!