Devo, não nego…

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Nas últimas semanas, o centro do noticiário sul-americano foi a Argentina. Após a dramática derrota na final da Copa do Mundo, os hermanos enfrentam outro desafio, desta vez muito mais sério, com uma nova crise da dívida. A retenção dos pagamentos a credores “abutres” resultou, no dia de ontem, no vencimento do prazo para negociações e, oficialmente, no segundo calote do país em menos de quinze anos.

Para quem não lembra, no ano de 2001 aconteceu a mesma coisa – e a crise atual é consequência daquela. No turbilhão do começo do século XX, a Argentina simplesmente não tinha dinheiro para pagar os credores e fez valer o ditado do “devo, não nego, pago quando puder”. A dívida foi renegociada ao longo da década, e alguns investidores resolveram comprar esses títulos mais baratos – esperando receber de volta os ativos no valor original, lucrando horrores em mais uma das divertidas apostas que apenas o capitalismo nos proporciona. Essa é a fonte do problema – um grupo liderado pelo magnata Paul Singer quer receber centavo por centavo o valor total, enquanto a maioria dos credores (especialmente aqueles que emprestaram o dinheiro originalmente) aceitou uma solução intermediária em que receberiam menos, mas receberiam. O dinheiro (a bagatela de alguns bilhões) foi depositado em banco norte-americano, os “abutres” entram na justiça e com isso, uma corte da cidade de Nova Iorque decidiu o destino de uma nação do outro lado do planeta, em um daqueles momentos bizarros do Direito Internacional.

Tecnicamente, não é um calote – a Argentina tem o dinheiro dessa vez. Mas como ainda há litígio, não pode desembolsar, e por isso o atraso. O cenário tem um impacto negativo, e como usual tenta-se identificar culpados nisso tudo, mas é complicado. Apesar de relativamente imoral, a atitude dos investidores é legítima – já estava definido por acordo que as divergências seriam levadas àquela corte, então não se trata de ingerência dos EUA ou qualquer coisa do tipo. A Argentina apresenta boa fé para o pagamento, mas ao mesmo tempo não deixa de ser a principal culpada pelas desastrosas políticas econômicas do século XX que fizeram de seu PIB, outrora seis vezes maior que o brasileiro, agora cinco vezes menor, e da postura intransigente durante as renegociações.

O que parece certo é que o impacto sistêmico não será tão grande como o de 2001 – provavelmente haverá uma renegociação. Mas as consequências práticas e pontuais serão visíveis. O mercado financeiro sofre com essas crises, e a perda de confiança desvaloriza o Peso, que por sua vez esfria a economia. O resultado é inflação e desemprego. Por sua vez, o problema respinga no Brasil, que vende menos para um de seus maiores parceiros comerciais. Resta saber se o resultado disso fortalecerá Kirchner pelo discurso de combate aos abutres estrangeiros, ou se fortalecerá a oposição e dividirá ainda mais o país.


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