Deus salve os políticos

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“God save the Queen.” É o que diz o hino do Reino Unido. Ainda bem que a letra foi escrita na metade do século XVIII, já que Deus foi incumbido de salvar apenas a rainha – e, indiretamente, o seu reinado. Nas atuais circunstâncias, Seu encargo seria bem mais complexo: salvar o primeiro-ministro, uma coalizão partidária e o sistema eleitoral britânico para salvar o país. Na terra da rainha, uma figura quase sacra, os políticos é quem precisam de salvação.

O Álvaro já nos apresentou muito bem o conturbado quadro eleitoral no Reino Unido (aqui e entenda mais sobre o sistema aqui). Vieram as tão esperadas eleições parlamentares, realizadas na última quinta-feira (confiram esta matéria sobre a perspectiva das eleições no país). Resultado: venceu o Partido Conservador, conquistando 290 cadeiras na Casa dos Comuns, o Partido Trabalhista ficou em segundo lugar (246), o Partido Liberal Democrata, em terceiro (51). Problema: os conservadores não obtiveram maioria absoluta (ou seja, deveriam ocupar pelo menos 326 assentos), o que significa dizer que os partidos devem agora garantir a governabilidade através de alianças.

Neste cenário político, as alianças têm nome: liberais democratas (aqui). Conservadores ou trabalhistas terão o apoio deste partido menos expressivo, todavia, glamoroso pelo fenômeno Nick Clegg? Habilmente, Clegg vem mantendo negociações com ambos os lados, tendendo um pouco mais para os conservadores, que elegeram o maior número de parlamentares. Só que, inesperadamente, Gordon Brown, atual primeiro-ministro, decide renunciar (se é que o fez) para facilitar a formação de uma aliança com Partido Liberal Democrata. Notemos a que ponto podem chegar as manobras para a preservação do poder. Há um alto custo em jogo: o sacrifício de um governo, sem a certeza de continuidade futura.

Ainda que Brown não tenha colecionado muitos elogios – ora pelas críticas por aprofundar a desigualdade entre ricos e pobres, ora por elevar o déficit orçamentário (11,9% do PIB, quase equivalente ao atual déficit grego, 13,6%) incitando cortes nas despesas sociais -, sua renúncia pode ser uma atitude um pouco precipitada. Clegg reconheceu como oportuna a manobra para uma aliança com os trabalhistas, ainda assim, persiste com o pé na canoa conservadora. David Cameron, líder do Partido Conservador, traz à tona o sedutor argumento de que as diferenças partidárias devem ser esquecidas para a defesa do interesse nacional, o que inclui uma reforma eleitoral por um sistema mais representativo – proposta vista com bons olhos pelos liberais democratas. Até quando é possível navegar em duas canoas num rio tão agitado?

Em meio a um sistema político manchado por diversos escândalos, os liberais democratas guardam um resquício de moralidade, já que não se envolveram tanto quantos os outros dois partidos. Mas talvez, como afirmam os realistas, o poder não seja um exercício de moral e o que dela restou do partido de Clegg deve ser sacrificada em prol de uma escolha, de um governo e de um futuro. “God save the politicians”.


Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


4 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Boa lembrança Álvaro. Pois é, são iguais, mas entre dois iguais que venha o "novo". Em política me parecem bem diferentes suas propostas (Clegg e Cameron), mas na prática - na hora do poder - tudo vale, né? Vamos ver se os britânicos aprendem esse negócio de coalizão, deviam ter um estágio com Sarneys da vida, que sempre estão lá. hehehMuitos dizem que essa aliança não vai durar muito...

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Pois é, exatamente no momento em que terminei o post, saiu a notícia. Acho que vou ter reformular o post (hehehe). Acho que a manobra de Brown vai ficar marcada como uma das piores da história política do país.E para completar o que o Álvaro falou: "é tudo farinha do mesmo saco".

Alcir Candido
Alcir Candido

Aliás, é de se considerar o quão estranho é pensar numa aliança (seja no reino ou em qualquer outro lugar)entre conservadores e liberais democratas... Vai entender

Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Aparentemente eles já escolheram a canoa - a manobra de Brown foi um tiro no pé e deu o golpe final nos 13 anos de governos Trabalhistas; agora está consolidada a aliança lib dems-conservadores. A título de curiosidade, me lembra o Brasil Império: "Nada mais parecido com um saquarema (conservador) do que um luzia (liberal) no poder"...