Desmontando e montando

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A União Européia marcou uma espécie de modelo ideal de integração regional. De um início tímido, quando constituído por seus membros-fundadores, o projeto foi progressivamente ganhando contornos de uma verdadeira “Europa sem fronteiras”. Nestes quase setenta anos de história, o bloco unificou objetivos e foi muito além de sua incumbência inicial. A paz aflorou entre os antes inimigos de guerra, as barreiras aduaneiras foram removidas, criou-se o Mercado Comum e, mais recentemente, ratificou-se o Tratado de Lisboa.

Este grupo de países viu passar ante seus olhos momentos fundamentais, seja a queda das últimas ditaduras na Espanha e Portugal ou o fim da Guerra Fria, seja as manifestações pró-mudança da geração de 1968 ou a ascensão do movimento Solidariedade na Polônia. As inúmeras convulsões políticas, sociais e econômicas vividas foram pano de fundo para uma Europa que deu sinais de mover-se rumo um sistema consolidado de integração, baseado na livre circulação de mercadorias, pessoas, serviços e capitais. Tão bem sucedido que o seu caminho percorrido é amplamente estudado e utilizado para pensar novos esquemas de integração regional.

Entre as principais bandeiras da nova União Européia está o euro. Contudo, é exatamente a moeda comum que promove o receio que crises circunscritas a países específicos (como a Grécia) terminem por minar a estabilidade de outros de seus membros. Todos os países do bloco, ao menos em certa medida, construíram e financiaram benefícios para seus concidadãos a partir de um crescente déficit público. Agora, crise após crise, a fatura parece ter chegado. Mais que isso, cabe a alguns aportar em nome de membros menos capitalizados, afinal muito está em jogo.

A situação, mesmo que prove ser meramente temporária, traz consigo inconvenientes para o aprofundamento da integração. De um lado, estarão os países ajudados, obrigados a cortar grande parte dos benefícios sociais criados e aumentar impostos como forma de mostrar forte comprometimento com o combate da dívida e do déficit orçamentário. De outro lado, estarão aqueles países ainda fortes apesar de endividados também, que tentam salvar outros enquanto pensam em suas próprias prioridades. Ao menos deste problema os britânicos parecem ter escapado. O processo já deu mostras de quão doloroso será.

Poderia a crise corroer as bases um processo tão bem (ao menos aparentemente) estruturado e minar a confiança construída pela paz e prosperidade? Quando a própria sobrevivência está em questão, muitos se esquecem de pensar em problemas além de seus próprios. Como em todos os demais momentos de inflexão, o rumo parece incerto. No entanto, sanar os problemas conjunturais pode representar uma oportunidade única de repensar a própria estrutura do bloco, não permitindo assim arrefecer o espírito da “Europa sem fronteiras”.

Obs: É engraçado ver o secretário do Tesouro norte- americano mencionar possíveis efeitos catastrófico advindos das discordâncias entre os governos europeus. Tomara que ele não tenha esquecido o embate democratas x republicanos em seu próprio país.


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