De(s)mocratizando?

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Esta semana surgiram algumas importantes movimentações com relação às eleições presidenciais no Peru. De acordo com pesquisas de intenção de voto, é provável um segundo turno entre Ollanta Humala e Keiko Fujimori. Mario Vargas Llosa, recentemente laureado com o Nobel de Literatura, chegou a afirmar que caso tal cenário realmente se configure, o país enfrentaria uma situação como escolher entre o câncer terminal e a AIDS. Muitos comentários surgiram também nas mídias sociais. Vários peruanos parecem ver o cenário eleitoral como uma desmontagem da democracia do país.

Mas afinal, quem são estes dois candidatos que levantam discussões tão calorosas? Keiko Fujimori é senadora e representa a via conservadora. Contudo, é mais conhecida por ser filha do ex-presidente Alberto Fujimori, o mesmo que foi condenado a 25 anos de prisão por violações aos Direitos Humanos. O segundo candidato, Ollanta Humala, é militar da reserva e candidato pela coligação de esquerda “Ganha Peru”. Ficou conhecido por liderar uma tentativa uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Alberto Fujimori. Há ainda outros dois candidatos com chances de passar ao segundo turno, o ex-presidente Alejandro Toledo e o ex-ministro da economia Pedro Paulo Kuczynski.

As críticas aos dois principais favoritos são abundantes. Analistas políticos defendem que Keiko Fujimori, e o conseqüente retorno ao “fujimorismo”, poderia significar um retrocesso democrático e a volta da perseguição política. Sua campanha foi baseada na defesa do modelo político adotado por seu pai, o qual teria, ainda segundo a candidata, estabelecido as bases para a estabilidade econômica peruana. Já Humala apresenta um projeto nacionalista denominado “afirmar a nação, transformar o Estado”, incluindo a construção de um novo marco constitucional para o país. Seus principais críticos receiam uma aproximação com regimes de esquerda, especialmente o comandado por Hugo Chávez.

Apesar de sua base política consolidada junto a uma parte do eleitorado, Keiko Fujimori talvez seja a candidata mais fácil de recusar, especialmente devido ao fato de seu projeto político ancorar-se em antigos aliados e prioridades adotadas pelo ex-presidente Fujimori. Por outro lado, Humala tem seus críticos fortemente baseados nos vínculos que se apresentam entre ele e Chávez. Em 2006, Humala perdeu o segundo turno das eleições presidenciais para Alan Garcia, muito em decorrência da pretensa adoção do modelo político “chavista”. No último debate entre os candidatos, todos direcionaram críticas a Humala, coincidentemente o único representando à esquerda. No entanto, desta vez o candidato se define com mais próximo ao modelo democrático brasileiro, tentando desvencilhar-se das comparações com os presidentes do socialismo do século XXI”.

Afigura-se o cenário para o segundo turno. Humala tem uma vantagem consolidada ante aos demais, o que provavelmente garantirá seu lugar na continuação da disputa presidencial. Resta saber quem o acompanhará. Alan Garcia abriu caminho para tal fragmentação política, seu partido sequer lançou um candidato a sua sucessão. E agora? Será possível desmontar a democracia? O Peru encontra-se frente a um desafio, escolher entre várias opções: uma representando o passado; outras movidas pelo conservadorismo e livre-mercado; e por último a que defende uma mudança do sistema. Independente do resultado, o risco de novos autoritarismos permeia as discussões. Resta aos cidadãos peruanos não permitirem que o medo de uma “desmocratização” torne-se realidade, levando o país a retroceder em tantas conquistas do passado recente.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


1 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Ótimo post, Kita! Achei interessante (apesar de desanimadora) a comparação do ganhador no Nobel sobre "escolher entre o câncer terminal e a AIDS". Que situação complicada... esperemos o desenrolar das eleições pra ver o que acontece, né?Beijos!