Desenvolvimento socioeconômico ou apenas econômico?

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Esta é uma questão crucial para o Brasil. Para agora e para o futuro que pretende alcançar. Uma nação socialmente justa, idealizada nos discursos de nossa presidenta e de seus predecessores, depende da equalização do desenvolvimento econômico com o atendimento das necessidades sociais. Por sinal, este foi o tema de um artigo de Érica Fraga, publicado ontem na Folha de São Paulo. Para a autora, este é o grande desafio do nosso país: traduzir os avanços econômicos em melhoria dos indicadores sociais.


Nunca é demais recordar que a persecução do desenvolvimento figura no cenário político brasileiro desde a década de 1930. Ora, foi traduzido como industrialização, ora como crescimento econômico. Na década de 1990, adicionou-se definitivamente o prefixo “socio”. Uma nota teórica: a partir do conceito de “desenvolvimento humano” do renomado economista indiano Amartya Sem, o desenvolvimento passou a significar muito mais do que crescimento econômico, senão como a eliminação de todas as formas de privações que impeçam as pessoas de viverem uma vida plena e digna. Privações estas que podem ser de natureza diversa: pobreza, fome, preconceito, desigualdade de gênero, analfabetismo, etc.

Do ponto de vista econômico, muitas projeções, a priori, são otimistas. A expectativa é que o Brasil ultrapassará Itália, Reino Unido e França, no ano de 2015, e se tornará a 5ª maior economia do mundo. Até 2040, juntamente com os demais membros dos BRIC – agora com a adição da África do Sul e, possivelmente, deve entrar a Indonésia –, superará a economia do G-7. O nosso “bilhete premiado”, ou seja, o pré-sal, pode gerar nada mais nada menos do que US$ 1 trilhão, o que significa a adição – se comparado com os dados atuais – de um terço ao PIB brasileiro. O lado pessimista é que crescer demais gera a inflação e sua cadeia causal: menos consumo, menos crescimento. Outro fator é a desconfiança: é possível converter nossas potencialidades em possibilidades concretas?

Agora o lado social. É absolutamente fantástico e louvável o esforço dos nossos governos de libertarem mais de 20 milhões de pessoas da pobreza. Porém, libertar da pobreza significa, de acordo com os padrões do Banco Mundial, viver com mais de US$ 2 por dia. Com R$ 3,34 por dia ou R$ 100,20 mensais, uma pessoa sobrevive? Para retomar o conceito de Sen, a libertação da pobreza é apenas a libertação das formas de privação e, portanto, não pressupõe o alcance final do desenvolvimento. Há privações que persistem: de acordo com o coeficiente Gini, o Brasil é o 11º país mais desigual do mundo, e, segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD, o Brasil ocupa a 80ª posição em matéria de desigualdade de gênero. Ademais, para especialistas, a melhoria da educação é condição indispensável para nos consolidarmos como um país desenvolvido.

Estas são apenas algumas reflexões de uma discussão muito intensa. Para concluir, convém apresentar uma frase de Lúcio Costa, um dos construtores de Brasília: “O Brasil não tem vocação para mediocridade.” De fato, se não temos vocação para a mediocridade econômica, não devemos ter também para a social. A Colômbia (sim, surpreendam-se!) está mais nesse caminho inseparável do que o Brasil, como apresentou Fraga. O desenvolvimento socioeconômico deve ser um pacto de sangue e suor entre o povo e seus governantes, entre a nação e a sua história.


Categorias: Brasil, Economia, Política e Política Externa


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Ricardo Gonçalves
Ricardo Gonçalves

o problema do nosso país, é a corrupção e a branda atuação da justiça perante os saqueadores do dinheiro público...