Derrota iminente

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Ah, a Copa do Mundo. Começou ontem, e enquanto o leitor se depara com a enxurrada de notícias e análises que vão infernizar nossa vida por cerca de um mês, sugiro que confira com alguma atenção a seção de notícias internacionais de seu jornal. Isso por que existe um problema gravíssimo no cenário internacional que está passando completamente batido e pode ter muitas consequências inesperadas.

E não é um problema novo – a crise do Iraque, que está esquecida mas já completa mais de dez  anos (na verdade, se fossemos puxar o fundamento histórico, o Brasil nem era tetracampeão quando as coisas começaram a degringolar, mas enfim…). Nos últimos dias, a violência no Iraque aumentou consideravelmente (como se já não fosse alta) devido à ação de insurgentes sunitas que tomaram diversas cidades, espalhando violência contra a população xiita em seu caminho, e tomando o rumo da capital Bagdá em um ritmo alarmante – ao ponto de o presidente Obama cogitar medidas extraordinárias para ajudar a evitar a queda do governo iraquiano. Irônico, não?

A revolta sunita tem muito a ver com a marginalização em relação ao governo xiita. Nos últimos anos, o primeiro-ministro al-Maliki removeu oficiais sunitas e curdos das forças de segurança e contou com o apoio de milícias sunitas para atuar nas suas áreas; quando os levantes foram debelados, entre 2008 e 2009, esses sunitas foram simplesmente esquecidos e muitos tomam parte da revolta atual. Porém, a maior fonte de problema vem de fora. Esses insurgentes são liderados pela organização que começa a ganhar nome no cenário internacional como ISIS (em inglês, “Estado Islâmico da Síria e Iraque”), uma sucursal da Al-Qaeda que representava seus interesses no Iraque mas brigou com a matriz, usa de uma truculência desmedida e é um dos principais membros da oposição na Síria. Lembram do Boko Haram? Isso mesmo, o grupo nigeriano que sequestra meninas para revender e chacina estudantes. Basta dizer que é um “afilhado” da organização. Sequer podemos descrever como um grupo terrorista, e sim como uma facção política ultraviolenta que avança a passos largos pelo Oriente Médio (e norte da África).

As implicações desse avanço são enormes. Acima de tudo, pioram a crise do Estado iraquiano, que não parece ter fim (lembre que desde a invasão norte-americana o país ainda não saiu de estado de guerra) e embaralhou a geopolítica regional. Iraque, Irã e Arábia Saudita se contrabalanceavam; com a queda do Iraque, existe uma polarização nefasta entre a monarquia sunita do golfo e a república islâmica xiita, que favorece o radicalismo em ambos os lados. Curiosamente, o Irã parece ser o fiel da balança, já que é aliado dos governos atuais do Iraque e da Síria, sendo um inimigo potencial do ISIS. Os EUA apoiam a organização indiretamente na Síria (entre outros grupos radicais islâmicos, o que muita gente vem alertando desde 2012), mas em vista de seus interesses regionais, pode acabar tendo que buscar a aliança improvável com o Irã. E nesse meio todo temos Israel, programa nuclear iraniano, Rússia…

Se instabilidade no Iraque não fosse um problema suficiente para agravar a guerra civil na Síria, já que os países são vizinhos, se o ISIS conseguir se estabelecer de modo sólido naquele, terá uma base de operações para sua atuação na Síria e vai complicar ainda mais a até agora pior guerra civil do século.  Literalmente, é uma situação em que todo mundo tem a perder – nem mesmo a organização Al Qaeda é aliada do ISIS. Resta saber se o resultado será uma nova atuação independente dos EUA, a busca de alianças improváveis (mas históricas se vierem a ocorrer) ou o simples desmoronamento final de um Estado já em ruínas.


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