Dependência: entre o passado e o futuro

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Outra vez mais, a “dependência”, termo tão caro as inteligências políticas de outrora, volta ao umbral da América Latina. E a sua invocação veio durante o 33º Período de Reuniões da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), que hoje se encerra em Brasília, por intermédio da secretária executiva do órgão, a mexicana Alicia Bárcena. A região corre agora o risco de uma “nova dependência”, e adivinhem de quem? Da China, que no século XXI se converteu no principal parceiro comercial de muitos países latino-americanos.

Ora, ressalta-se: a América Latina não se comporta como um neófito diante do templo da dependência. Nas décadas de 1950 e 1960, quando o conceito fora cunhado pela CEPAL, o pensamento teórico supunha um ordenamento no qual a divisão internacional do trabalho condicionava a América Latina a exportar produtos primários aos países centrais, importando produtos manufaturados destes. Tal situação deteriorava os valores de troca, mantendo os países latino-americanos na periferia do sistema internacional e perpetuando o subdesenvolvimento dos mesmos. Para os teóricos dependentistas da época, criava-se uma condição inextricável, cuja fuga era impossível, a não ser que se abandonasse a ordem capitalista, o que significava, em outras palavras, deixar de fazer parte do mundo. Na academia, a teoria marxista das Relações Internacionais arrogou essas premissas dependentistas em seu corpo teórico.

Ápodes e acéfalos, restavam aos países latino-americanos sentarem-se na cadeira de rodas dos centros hegemônicos do capitalismo, notadamente pelos Estados Unidos, e por eles deixarem-se conduzir. Era o avesso da história que chegava ao fim antes de Fukuyama decretá-lo. Todavia, nem todos foram contaminados pela doença terminal da dependência, sobretudo Brasil, Argentina e México. Havia, sim, a possibilidade de superar o subdesenvolvimento dentro do próprio sistema capitalista. A doença tinha cura, chamava-se industrialização. Os modelos econômicos da América Latina sustentavam apenas uma diplomacia agroexportadora, enquanto que uma base industrial traria o desenvolvimento, o soerguimento da periferia, num primeiro momento.

Lições do passado, a duras penas, permitiram à região uma guinada em suas políticas internas e exteriores rumo à superação atraso histórico. Levaram os países latino-americanos a adentrarem ao grupo dos Não-Alinhados, na década de 1970, e depositarem a primazia no desenvolvimento, não mais na segurança. Algumas lições, a CEPAL chegou a desacreditar, outras não. E agora vem com novas recomendações. Mas não são de todo ruim. A força centrípeta para evitar uma nova dependência está na América Latina, no fortalecimento de seus mercados, no revigoramento do papel do Estado, no esforço para superar as desigualdades sociais, na superação do que Bárcena chamou de “maldição dos recursos naturais”, dentre outras medidas. (Confiram as resoluções aqui.)

De fato, a América Latina deve evitar uma nova dependência e os países que permanecem à deriva da atual precisam abandoná-la. Os líderes latino-americanos não podem permanecer na inépcia de um pensamento próprio e forte, congênito ao continente. Há que se comportarem como o prisioneiro que busca a luz, no “mito da caverna” de Platão. Pode ser uma região de contrastes, mas é também um rico laboratório de experiências históricas, cujos acertos de agora poderão torná-la uma grande potência no futuro. Deve haver uma voz uníssona que silencie os ecos da dependência.


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