Dengos e afagos

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Entre terça e quarta-feira dessa semana Obama se reuniu com o presidente afegão Hamid Karzai na Casa Branca. Nesse encontro lamentou as mortes de civis no Afeganistão, assumiu a culpa por esses erros, proferiu promessas de que o povo afegão não será esquecido pelos EUA e reiterou boas relações e compromissos de longo prazo com o líder afegão.


Alguém é capaz de identificar as incongruências das orações acima?


Toda aquela retórica de pressão ao Afeganistão pelo combate à corrupção foi substituída por afagos, dengos e votos de confiança no futuro no governo de Karzai. A retórica de eliminação do inimigo terrorista sutilmente também está dando lugar a uma preocupação grande com a população civil afegã.


Há, sem dúvida alguma, uma clara alteração estratégica nos discursos dos Estados Unidos frente ao Afeganistão. Quando a mera pressão internacional não parece funcionar, por que não tentar uma estratégia branda, uma pressão indireta? Assim cabe aquele conceito ideal-típico de dominação carismática postulado por Weber, no qual a dominação com vias na personalidade de um líder consistiria em certa probabilidade de obediência. Probabilidade essa que o governo americano deseja maximizar agora. Literalmente no campo dos discursos troca-se o porrete pela cenoura.


O cálculo de bases realistas realizado aqui foi simples. Karzai é um líder impopular eleito por pleito de caráter duvidoso. Quanto maior pressão direta realizada, teoricamente seria maior a possibilidade de seu alinhamento com os grupos que a Guerra ao Terror se propõe a eliminar, no caso o Talibã. Se o governo afegão realmente correria o risco de realizar essas alianças ou se tudo não passou de mero discurso não é possível afirmar com certeza.


Mas Obama foi capaz de perceber uma interessante variável adequado à situação: os EUA já tem suas tropas posicionadas no Afeganistão de qualquer forma. Como Estado afegão já não é instituição capaz de reivindicar com êxito o monopólio da violência legítima em seu território, também há uma nova lógica de relações de força no país. E na lógica atual, os EUA são importante ator. Portanto, quer queira quer não, Karzai deve lidar com a “águia da liberdade em seu território”, mesmo não se considerando guerra nos padrões tradicionais.


Essa nova postura emerge em um plano de fundo de incongruências discursivas de Obama. O lamento pela morte de civis não tem acompanhado as atitudes dos EUA na região. Não há como dizer que qualquer operação militar intitulada de guerra, por mais assimétrica e sem precedentes que possa ser (como a guerra ao terror), não gere efeitos na população.


As baixas civis são inevitáveis e continuarão a crescer quanto mais continuarão os grupos insurgentes a se esconder em meio à sociedade. Enquanto dengos e afagos regem na política dos governantes, as baixas e desastres regram a relação entre tropas americanas, grupos insurgentes e sociedade civil; sendo que o prejuízo sempre maior é do lado mais fraco, o dos cidadãos.


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