Déjà vu e futurologia: o lugar do Oriente Médio

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Voltam à tona os processos de paz no Oriente Médio, os suspiros românticos e as quimeras de sempre. Pesa a maldita herança do ataque israelense à “Frota da Liberdade”, misturada aos atritos com os Estados Unidos, o maior parceiro de Israel. Perduram os assentamentos judaicos em território palestino e a negação da criação de um Estado Palestino até 2012. Por outro lado, como uma medida compensatória ao que realidade mascara, anuncia-se o aliviamento do bloqueio a Faixa de Gaza e o indiciamento de apenas um soldado da ofensiva israelense na faixa de Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Outra vez mais, estamos diante do saudosista déjà vu: já estivemos nessa situação antes.

Há pontos de discordância entre Estados Unidos e Israel, mas nada que abale a relação carnal entre ambos os países. Netanyahu agora se encontra em Washington para tentar superar as tensões, sobretudo apresentando propostas concretas às negociações de paz no Oriente Médio. Duas mediações norte-americanas malograram anteriormente, com Biden e Mitchell. A primeira justamente em função da expansão de assentamentos judaicos, quando iniciadas as discussões pela paz na região. Um déjà vu: não bastasse os assentamentos cobrirem 42% do território da Cisjordânia – segundo uma ONG israelense de direitos humanos, algo aparentemente paradoxal -, acredita-se que outras 2.700 colônias estão para ser construídas.

Já a discordância entre Turquia e Israel vem se acirrando. O governo israelense pode perder uma importante parceria estratégica. O governo turco exige um pedido desculpa formal por parte de Israel pelo ataque ao barco turco que levava ajuda humanitária para Gaza. Não poderia ser diferente, Israel se nega a fazê-lo, bem como refuta as ameaças turcas de romper relações diplomáticas com o país. Um ponto interessante neste impasse e no episódio por ele revestido permite um exercício de futurologia: o desgaste de Israel, internacional e internamente (com forte mobilização da oposição), poderia contribuir para uma paz vindoura?

Como futurólogos de plantão, jogando tarô nas relações internacionais, perguntar-nos-íamos sobre o envolvimento de outros atores nas negociações de paz no Oriente Médio: haveria um avanço com esse maior envolvimento? O presidente da Síria, Bashar al-Assad, conclamou o papel-chave da União Européia e da América Latina numa solução pacífica para a região. Turquia e Brasil engajaram uma diplomacia ativa, num lugar predominantemente ocupado pelos Estados Unidos. Outro fato é a retomada das pré-negociações diretas pela paz entre palestinos e israelenses, capitaneadas por Salam Fayyad, premiê da ANP, e Ehud Barak, ministro da Defesa de Israel. Cabe ao tempo amadurecer essas expectativas.

Enfim, encontramos um Oriente Médio entremeado pelo déjà vu e a futurologia, dividido pelo ceticismo e pela esperança. Uma dosagem de ambos é necessária para avaliação das conjunturas regionais, de sorte que se evitem os erros de outrora e se materialize a paz futura, sem as ilusões românticas de que esta seja perpétua. É tão difícil alcançá-la quanto o será mantê-la.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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