Declinismo norte-americano?

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Este é um debate que tem acompanhado a trajetória dos Estados Unidos no final da década de 1970, ao término da Guerra Fria e tem voltado com vigor após os atentados de 11/09. O declinismo é associado à perda do poderio – político, econômico, militar, etc. – norte-americano e que repercute na sua capacidade de gerenciar a ordem internacional, meta buscada pelo país desde o término da Segunda Guerra Mundial.

É fato inconteste que os Estados Unidos permanecem como a maior potência mundial. O PIB norte-americano é superior a soma do PIB das cinco economias subsequentes. O poder militar é superior ao poder militar somado dos dez países que o sucedem. Porém, a despeito desses dados impressionantes, o gigante do norte não reina de maneira absoluta, por mais que passe por cima das organizações internacionais (ONU, OMC, etc.). A Europa, a China e mesmo as coalizões de países emergentes procuram contrabalançar o poder norte-americano, buscando outras formas de administrar o ordenamento global, sem o pretenso unilateralismo em um mundo multipolar ou o desejo de assumir a posição de “gendarme” global.

De acordo com Michael Mandelbaum, professor de política externa dos EUA da Universidade Johns Hopkins, a situação econômica do país – sobretudo, a dívida pública de US$ 14 trilhões e o déficit fiscal de US$ 1,3 bilhão – deve levar a um corte de gastos na atuação externa. Consequentemente, a tendência é que diplomacia norte-americana continue privilegiando a Europa, o Oriente Médio e o Leste Asiático. No entanto, o envolvimento direto nestas regiões – como, por exemplo, o envio de tropas para apaziguar a situação na Líbia ou no Iêmen – deve diminuir.

A ênfase nestas regiões ora deixa de lado outros temas caros à política externa norte-americana, ora negligencia temas vitais nos locais de interesse geoestratégico, como explicou Elizabeth Dickinson: o narcotráfico no México, a crise europeia, a questão da Caxemira, a divisão do Sudão, o terrorismo no Iêmen, a perda da exuberância do dólar, o desabastecimento do Afeganistão, os vazamentos do Wikileaks, as negociações para a criação de um Estado Palestino e a política para a América do Sul. Mesmo em sua tradição universalista, os tentáculos norte-americanos já não conseguem se espalhar por aí sem esbarrar em obstáculos.

Como no término da Guerra Fria, a ideia do declinismo veio como um alerta para os governos reajustarem a sua conduta externa, de maneira a manter o prestígio internacional. Após o 11/09, volta à tona. O mundo mudou significativamente e o país já não pode concebê-lo de maneira congelada, estática. Novos atores – Estados, organizações, movimentos sociais, etc. – vão se inserindo nos círculos da política mundial, procurando atuar em todos os quadrantes do globo e buscando novas formas de lidar com a ordem internacional. Tentar administrá-la de maneira unilateral já não convém e só acentua a perspectiva de declínio do poderio norte-americano, devido à incapacidade de fazê-lo sozinho. Por outro lado, participar de um jogo coletivo pode trazer o amargo sabor do declínio, temperado pela impotência e resignação. É uma situação complicada, que a grande potência fatalmente terá que enfrentar. Resta saber quando.


Categorias: Economia, Estados Unidos, Política e Política Externa


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