Decênio nas alturas

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Amanhã, dia 2 de novembro, a Estação Espacial Internacional (ou ISS, da sigla em inglês) completa 10 anos de atividades. Quando recebeu seus primeiros tripulantes em 2000, possuía apenas os módulos de habitação russos e uma parte de ligação norte-americana. Hoje…bem, a maioria dos módulos ainda é russa e norte-americana, mas o que importa é o espírito de cooperação internacional.

Isso destoa em uma área como a exploração espacial, marcada pela rivalidade no seu nascedouro, os anos 60, Guerra Fria a todo vapor. De fato, antes da ISS, houve duas estações espaciais tecnicamente funcionais: a Skylab, dos EUA, que funcionou nos anos 70, e a famosa Mir, russa, que operou de 1986 até seu espetacular fim em abril de 2000. Ambas nasceram nesse contexto de demonstração de supremacia tecnológica, e por mais que houvesse sinais de aproximação (e, após a queda da URSS, de atuação conjunta na Mir), ainda faltava um caráter eminentemente internacional e cooperativo para a pesquisa em órbita. Isso ocorreu com o planejamento e operacionalização da ISS.

A iniciativa é capitaneada pelas agências espaciais dos EUA (NASA), Rússia (RKA), Japão (JAXA), Canadá (CSA) e União Europeia (ESA). O que muitos não sabem é que além dos países de origem das agências (os quatro citados e 11 membros da ESA), outro país sócio desse projeto é… o Brasil! Isso por que participa como sócio dos EUA em um processo de cooperação bilateral que remonta a 1997. Entre nossas contribuições estão algumas partes da estação, incluindo uma lente especial de observação, e o acesso aos laboratórios para experimentos em gravidade zero (além de já termos mandado nosso astronauta pra lá).

Claro que houve percalços no caminho, principalmente por conta dos custos. E não é algo barato – e muito menos fácil de montar! Pra ter uma idéia, a estação só vai estar completa em 2011 (nesta semana, aliás, o último vôo planejado do ônibus espacial Discovery levará módulos para a ISS), com um custo da ordem de US$100 bilhões. E com a crise financeira internacional (associada ao corte de gastos dos EUA com programas espaciais) a ISS quase foi pro brejo. Felizmente Obama salvou a idéia garantindo a permanência dos EUA pelo menos até 2020.

Muitos questionam os valores e a necessidade de um projeto desses. Não vou entrar nos méritos de discutir quando e como será – isso é tarefa, por enquanto, da ficção científica –, mas cedo ou tarde a humanidade será compelida a explorar o espaço, seja por falta de espaço, de recursos ou por catástrofes. E nisso a ISS desempenha um fator imprescindível no estudo dos efeitos da falta prolongada de exposição à gravidade. Ademais, há estudo um pouco mais mundanos que são possíveis somente no ambiente espacial de microgravidade, como os encomendados pela Embrapa na ocasião da viagem do astronauta Marcos Pontes. E é inegável que muitos sucessos (e possíveis descobertas) virão quando a estação estiver completamente funcional.

Mais do que a utilidade prática, há uma simbologia política na ISS. Claro que nem tudo são flores, como o reiterado veto norte-americano à entrada da China no projeto (que, aliás, vai se virar sozinha e já planeja sua própria estação). Mas, em um setor de tecnologia sensível como a aeroespacial, a participação aberta de vários membros é virtuosa e benéfica como medida de confiança e participação multilateral nos progressos científicos. Assim como a famosa missão Apollo-Soyuz de 1975 (na qual 2 cápsulas espaciais, uma norte-americana e uma soviética, atracaram-se em órbita) representou o momento de détente e de aproximação entre as superpotências, espera-se que a permanência e o sucesso da ISS representem o multilateralismo e a confiabilidade que se almeja no século XXI.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Estados Unidos, Europa


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Eu sou pelo avanço da ciência, mas há de se levar os custos em consideração. Contudo não tenho uma real opinião formada. E para terminar esse comentário que nada agrega como eu gostaria de ter a chance de ir ao espaço.Abs,